Desde o anúncio, todo o caminho trilhado por Star Wars: Battlefront II até o lançamento foi pavimentado por altas expectativas.

Um jogo três vezes maior que seu antecessor, a confirmação da tão pedida campanha singleplayer, uma nova história canônica no universo de Star Wars: o trem do hype do game parecia acelerar sem problemas a uma velocidade suficiente para completar a Kessel Run em menos de 12 parsecs.

Não foi surpresa para ninguém, portanto, a magnitude da decepção da comunidade gamer com o lamaçal de microtransações duvidosas e o sistema de loot boxes do jogo – perigosamente próximo do temido modelo de pagar para vencer.

Mesmo após pouco mais uma semana de seu lançamento oficial, no momento da publicação deste review, a situação ainda parece longe de definida – com uma suspensão de microtransações que pode ou não ser definitiva.

E, infelizmente, os problemas de Star Wars: Battlefront II não acabam por aí.

Mesmo atravessando toda a cortina de fumaça levantada pela polêmica das microtransações e loot boxes, o novo título da Electronic Arts e da DICE ainda tropeça em uma série de outros aspectos que deixam um gostinho amargo na boca por tudo que o game poderia ter sido, mas não consegue ser.

Uma colcha de retalhos canônica

Bem antes do lançamento oficial Star Wars: Battlefront II, tive a oportunidade de jogar as três primeiras missões da campanha do jogo no quartel general da EA, em Redwood City, na Califórnia.

Divulgação/EA

Após pouco mais de uma hora e meia, não poderia ter saído mais empolgado da sessão de jogatina: com uma protagonista forte e complexa, a história da comandante do Esquadrão Inferno, Iden Versio (Janina Gavankar), prometia explorar o Império Galáctico de dentro para fora, oferecendo novos pontos de vista raramente explorados no universo de Star Wars. Eu estava ansioso para acompanhar o desfecho desse conto.

Com o jogo completo na mão, no entanto, o resultado final parece ser uma campanha linear mais preocupada em atender a todos os anseios de fãs da franquia do que dar sequência à narrativa tão bem introduzida no princípio.

A partir do quarto episódio da história, as missões se tornam uma sequência constante de rodadas alternadas entre a história de Iden e partidas com outros personagens clássicos de Star Wars.

Fugir de stormtroopers com Han Solo, defender Theed com Leia e pilotar a Millenium Falcon por aí são momentos divertidos, mas acabam se tornando meio desconexos e, por vezes, jogados no meio da trama como um velho – e não tão bom – caso de fan service.

São retalhos que dificultam a empatia com personagens ao redor de Iden Versio, tornam a trama canônica meio nebulosa e que – após cerca de oito horas – desembocam em um final repentino e que não traz a menor sensação de fechamento. Pelo contrário.

Após um salto de trinta anos no final da campanha, o jogador ainda é apresentado a um epílogo que parece ter como único objetivo estabelecer um teaser para uma história que fica completamente em aberto – como uma cena pós-créditos da Marvel que só quer prender sua atenção até o próximo filme. Se você não se importar com spoilers, pode saber mais sobre esse final e sua possível implicação aqui.

Ainda assim, mesmo com a história conturbada, a campanha do jogo ainda tem alguns pontos altos. É particularmente bem-vinda a sequência de desafios diversos lançados ao colo do jogador, mesmo se tratando de um shooter bastante tradicional.

Divulgação/EA

Há missões que privilegiam a furtividade e o uso inteligente de habilidades dos personagens, missões em que é necessário defender pontos do mapa de ondas de inimigos e até uma missão em que pilotamos um AT-AT.

Também é boa a alternância constante entre trechos de combate no chão com segmentos de briga com caças espaciais, o que oferece momentos de “respiro” e dá um bom ritmo de evolução na  jogabilidade da campanha – ainda que o mesmo não valha para a história.

Multiplayer com inconveniências

Mesmo com a adesão da campanha, a maior parte do tempo de qualquer jogador de Star Wars: Battlefront II claramente ainda é passada no multiplayer  – que também foi modificado pesadamente e não completamente para melhor.

Uma das maiores novidades fica por conta do sistema de classes, que agora permite que o jogador escolha entre quatro diferentes tipos de unidades para entrar em combate. O sistema também está presente nos combates espaciais, mas não tem a mesma relevância.

No combate terrestre, os personagens fazem papéis clássicos de infantaria (assalto), infantaria pesada, oficial – que funciona como uma espécie de suporte ao time – e o especialista – o sniper do quarteto.

Divulgação/EA

São quatro tipos de unidades que funcionam bem em grupo e possuem habilidades complementares. O jogo também tenta incentivar o trabalho em grupo estimulando jogadores a avançarem na batalha ao lado de outros três companheiros de esquadrão, dando o dobro de pontos para missões realizadas em conjunto.

Infelizmente, todo o modelo parece quebrado por conta do complexo sistema de progressão.

Vamos lá: primeiro, para desbloquear novas armas e suas customizações, é necessário atingir um determinado número de execuções com cada uma das classes. É um processo longo que incentiva mais o comportamento 'rambo' do que o trabalho em conjunto para atingir objetivos durante combate.

Além da progressão com armas, há também o nível do perfil de jogador – que usa uma lógica completamente diferente de evolução.

Responsável por definir qual a raridade das Star Cards que o usuário consegue criar, o nível do perfil de jogador avança conforme o desempenho em jogos e é afetado por quase tudo que você faz – executar inimigos, dedicar tempo aos objetivos das missões e por vitórias ou derrotas.

Colecionar cartas de raridade alta, por sua vez, é necessário para desbloquear novos slots de cartas para seus personagens – uma terceira dinâmica complicada de evolução que não tem nada a ver com as duas anteriores.

Ao princípio do game, cada classe de soldado, nave ou herói do jogador é capaz de equipar uma única carta de habilidade passiva ou equipamento especial por vez. Os outros dois slots só poderão ser liberados conforme o usuário desbloqueie mais cartas raras para aquele personagem específico, o que pode ser feito criando estas cartas com peças de criação ou encontrando-as dentro das infames caixas de loot.

Fundamentalmente é um sistema desenhado para estimular microtransações. Mas, agora que as microtransações parecem ter ficado de lado, ele só é um sistema chato e inconveniente.

Indo além desse fatos, ainda vale destacar os diferentes modos de jogo do multiplayer de Star Wars: Battlefront II, que variam na qualidade de experiência. E ainda que o título traga cinco modos de jogo, apenas três são realmente dignos de nota – foi mal, Ataque e Batalha.

Divulgação/EA

O primeiro deles, Ataque Galáctico, é o feijão com arroz de Battlefront II. O modo de jogo coloca o jogador em enormes batalhas campais em estágios que, geralmente, envolvem a escolta de algum grande veículo pelo time atacante – e a sua destruição pelo time defensor – e/ou a defesa/sabotagem de pontos específicos do mapa. Tudo isso envolvendo soldados a pé, veículos, naves, heróis e vilões em uma mesma arena.

Colocadas as mudanças trazidas pelo sistema de classes e pela nova forma como heróis e vilões podem entrar em ação de lado, é um modo que não foge muito da experiência do antecessor ou de outros títulos semelhantes, como Battlefield, e é consistente com o que um gamer procura do multiplayer AAA.

Ataque com Caças Estelares, no entanto, é onde o jogo mais parece brilhar. O modo oferece combates estelares ágeis e intensos e tira proveito da remodelagem das naves do jogo – que definitivamente não se parecem mais apenas com carrinhos de bate-bate.

Vale notar, no entanto, que a frustração com o sistema de cartas aqui é bem maior: com um combate que tende a depender mais da ação individual, um jogador com um deck completo de cartas de raridade alta tende a fazer um estrago muito maior do que em outros modos de jogo.

Além disso, infelizmente, o modo parece ser um dos mais difíceis de se achar partidas completas e o jogador frequentemente se vê obrigado a aguardar por alguns bons minutos antes que uma 24 jogadores sejam encontrados para que o quebra pau espacial possa começar.

Por fim, o modo Heróis vs. Vilões oferece partidas rápidas de “pega-pega”, nas quais dois times de quatro personagens lendários se enfrentam e precisam eliminar um alvo específico no outro time para contabilizar um ponto. Só não espere jogar tão cedo com nomes como Luke Skywalker ou Darth Vader, já que ambos ainda permanecem trancados atrás da alta barreira de créditos necessária para desbloqueá-los.

A Força está com quem?

Apesar dos belíssimos gráficos e cenários, da boa jogabilidade e de visitar momentos queridos por fãs da franquia, o título conta com deslizes que parecem ser resultado de decisões corporativas que são tomadas na contramão do que é esperado pelo jogador.

A boa notícia, no entanto, é que a EA – por pressão da comunidade e, possivelmente, da própria Disney – parece ter sentido o impacto negativo destas decisões. Algumas mudanças necessárias já foram implementadas, ainda que grande parte dos outros problemas do jogo dificilmente serão arrumados.

Como prometido, Star Wars: Battlefront II realmente entrega um jogo com bem mais conteúdo do que seu antecessor. Mas, no final das contas, a sensação do jogador é de receber bem menos do que esperado.

Divulgação/EA

Star Wars: Battlefront II está disponível para PlayStation 4Xbox One e PC (Origin). O jogo foi testado em um PlayStation 4 padrão. Clique no nome da plataforma para conferir seu preço nas versões digitais.

Nota do crítico