Eu sempre fui fã da máxima de não mexer em time que está ganhando. Há sempre espaço para melhorar alguma coisa em algo que já é bom? Talvez. Mas, se já está tudo certo, meu partido costuma ser o de deixar como está para não correr o risco de quebrar à toa.

Shadow of the Colossus foi assim. Um dos games mais marcantes na geração do PlayStation 2, minha primeira reação após o anúncio do seu novo remake, na E3 2017, foi resmungar alguma coisa rabugenta e cética sobre a mania da indústria com remakes – e sobre o quão desnecessário esse projeto seria.

Afinal, a última mão de tinta no título, um remaster para o PlayStation 3 junto ao seu antecessor espiritual, Ico, em 2011, ainda estava relativamente fresca e já trazia o game à modernidade do mundo em alta definição. Para que um remake?

Mas fico feliz em reconhecer que estava errado.

Foi só depois de logar pela primeira vez no novo Shadow of the Colossus e de vê-lo lado a lado ao seu antecessor do PlayStation 2 que entendi como o tempo não foi tão piedoso com o título original. E, com isso, me dar conta da importância deste remake – refeito do zero pela Sony Japan Studio e Bluepoint Games, conhecida por trabalhar no remaster do PS3 e em novas versões de games como Uncharted: The Nathan Drake Collection e Metal Gear Solid Legacy Collection.

Em sua versão original, Shadow of the Colossus ainda guarda o mérito de ser uma obra-prima visual que, em sua época, forçou o hardware do PlayStation 2 até novos limites. Mas a realidade hoje é outra: com sua arte, propositalmente lavada e borrada, o visual do game causa estranhamento a qualquer um acostumado à realidade e fluidez do mundo em 60 FPS e Full HD – cada vez mais próximo do 4K – que nos mima atualmente.

Deixar Shadow of the Colossus como estava seria, de certa forma, roubar-nos a chance de revisitar um mundo adorado e icônico, mas renovado com uma nova escala e novos detalhes que fazem justiça ao clássico de Fumito Ueda – agora blindado contra o tempo, ao menos por mais uma boa porção de anos.

Revisitando um novo mundo

Divulgação/Sony Interactive Entertainment

Em termos da história, nada muda em Shadow of the Colossus: o game ainda acompanha a jornada de Wander, um protagonista solitário que barganha com uma entidade chamada Dormin para restaurar a vida de Mono, uma garota sacrificada por conta de seu “destino amaldiçoado”. Em troca da ressurreição, Wander cruza os quatro cantos das Terras Proibidas nas costas de seu cavalo, Agro, com a missão de derrotar os 16 Colossi que contém a essência de Dormin.

Ainda assim, tudo é diferente: revisitar cada um dos belos cânions, planícies, florestas, pântanos e desertos das Terras Proibidas é uma experiência nova e repleta de novos detalhes que ou não existiam ou ficavam escondidos por conta das limitações técnicas do antecessor. Tudo, é claro, acompanhado de uma trilha sonora que cresceu em escala com a adição de mais músicos para sua regravação.

O mesmo vale para cada um dos gigantes de pedra do game, que ganham uma nova dimensão com atualização – ainda que iguais aos seus antecessores. Os Colossi parecem maiores, mais ameaçadores e mais expressivos do que na iteração passada, o que deixou os enfrentamentos quase tão intensos quanto da primeira vez. A tristeza de derrubar cada um dos Colossi, aliás, também é a mesma.

Desprovida do desconhecido, a experiência de se jogar o remake de Shadow of the Colossus não se iguala àquela de encontrar o game pela primeira vez. Lá trás, cada novo desafio era empolgante e intimidador de uma forma que nenhum remake pode ser. Desafios que exigiam empenho até que descobríssemos, com nossos próprios erros, o caminho para resolvê-los – o que é sempre seguido pela satisfação de uma missão cumprida.

Mas colosso após colosso, a curiosidade de querer explorar os novos detalhes trazidos a cada área do game – aproveitando, inclusive, no novo modo fotografia para cliques virtuais – continuava. Junto a isso, a nostalgia de andar novamente por lugares conhecidos empurrava meu desejo de continuar dentro naquele mundo. Ao final do jogo, eu estava pronto para mergulhar mais uma vez em sua jornada, agora para o tradicional Time Attack.

Divulgação/Sony Interactive Entertainment

Apesar do triunfo visual, Shadow of the Colossus não é sem um par de elementos que poderiam ter sido modificados desde a era do PlayStation 2, mas permanecem problemáticos – talvez por opção da própria Bluepoint em respeito à forma original do game?

A curiosidade e nostalgia empurram o desejo de continuar neste mundo

O mais grave e irritante deles é o controle de câmera. Ainda que os controles tenham sido modificados para agradar aos jogadores modernos, o controle de câmera parece intocado e, por vezes, é um inimigo maior ao jogador do que os próprios Colossi.

A movimento da câmera é desajeitado e insiste em voltar ao seu ângulo padrão assim que o jogador solta o stick analógico direito, o que se faz irritante em diversos trechos – principalmente em combates que exigem uma coordenação precisa de movimento e câmera, como Dirge, uma gigantesca cobra subterrânea que só sai da areia para atacar o protagonista, e Phalanx, uma espécie de serpente voadora extremamente ágil. Ao final de algumas batalhas, uma DR se faz necessária com o controle da câmera – mas sempre em vão.

Um novo ícone

Divulgação/Sony Interactive Entertainment

O remake de Shadow of the Colossus foi, sim, um projeto necessário.

Pessoalmente, o título me ajudou a entender como um ranço antigo com remakes era, em grande parte, preconceito: há espaço o suficiente na indústria para remasters, remakes, continuações e também para franquias completamente novas. Quando há respeito ao material original, uma nova versão traz novas perspectivas que nunca existiriam não fosse o retrabalho de um clássico.

Mas o título vai além disso. O cuidado da Bluepoint com a importantíssima atmosfera de Shadow of the Colossus e com o equilíbrio entre mudar e conservar diferentes aspectos da jogabilidade, elevando o universo criado por Ueda e pela Team Ico em 2005 como um todo.

Divulgação/Sony Interactive Entertainment

Renovado, Shadow of the Colossus oferece uma nova oportunidade de redescoberta para jogadores que já o conhecem – que pode não ter o mesmo senso de novidade de uma primeira jogatina, mas é espetacular a sua própria maneira.

E mais importante: o título ele deixa as portas abertas para uma nova geração de jogadores se encantarem pelo game pela primeira vez – assim como muitos de nós nos encantamos quando o experimentamos, lá no PlayStation 2.

O remake de Shadow of the Colossus chega para o PlayStation 4. O jogo foi testado em um PlayStation 4 padrão. Clique aqui para ver o preço do jogo em seu formato digital.

Nota do crítico