Preciso começar este texto pedindo perdão aos fãs de Monster Hunter (especialmente aqueles que leram o título e já virão com pedras na mão nos comentários), já que boa parte deste texto explica como funcionam os jogos e conta por que eles são interessantes. Primeiro de tudo, farei isso porque eu não conhecia nada da franquia até jogar Monster Hunter: World.

De certa forma, apresentar Monster Hunter a um novo público, especialmente ao redor do mundo, é uma das estratégias primordiais da Capcom com o novo game. Com um lançamento global pela primeira vez na franquia e localização para diversas línguas - incluindo legendas em português do Brasil, que chegarão por meio de um patch no dia de lançamento ou depois -, a produtora japonesa tentará internacionalizar uma marca que, apesar das 40 milhões de cópias vendidas, nunca fez tanto sucesso fora do Japão.

Mas por que Monster Hunter não vingou mundialmente nesse tempo todo, mesmo sendo um sucesso indiscutível no mercado japonês? E por que só agora a Capcom decidiu levar isso em mente na hora de produzir o novo jogo da franquia? Essas perguntas não saiam da minha cabeça enquanto viajava para o outro lado do mundo para participar de um teste exclusivo de mais de 15 horas com World, em uma sessão na qual o The Enemy foi o único veículo do Brasil a participar.

Monster Hunter World

Novidade em Monster Hunter, o Anjanath promete dar trabalho aos caçadores

Capcom

Quem já ouviu falar da série ou tem o mínimo de conhecimento dela tem uma das respostas na ponta da língua. Monster Hunter, em sua essência, pode ser intimidador - especialmente para quem está acostumado às facilidades dos títulos modernos de alto orçamento.

Seu conceito gira em torno de caçar monstros enormes em ambientes maiores ainda. O processo é lento e trabalhoso - vencer uma dessas feras pode levar de 40 minutos a uma hora com tranquilidade. O loop de gameplay consiste em matar criaturas, tirar delas a pele, os pelos e os ossos para criar equipamentos melhores e, com isso, enfrentar desafios ainda maiores.

Some isso ao fato de o jogo em si ter uma jogabilidade cadenciada e processos vagarosas para a realização de tarefas simples como criar itens, e os jogos da franquia Monster Hunter podem ocupar facilmente todo o seu tempo livre. De acordo com dados do site How Long to Beat, que coleta tempos médios para se chegar ao fim do jogo, terminar Monster Hunter Generations, um dos jogos mais recentes, leva 90 horas . E isso é apenas a campanha: não é exagero encontrar jogadores mais dedicados com 200 ou 300 horas de jogo.

Por isso, de longe, Monster Hunter pode parecer um jogo extremamente tedioso. Mas algumas horas com World mostram que a essência da franquia é exatamente o contrário.

Monster Hunter World

O confronto entre os monstros é uma das partes mais espetaculares do jogo

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Caçar feras gigantescas como o Anjanath, uma espécie de T-Rex peludo, ou o Rathalos, um dragão de proporções monumentais, é uma tarefa dispendiosa. É preciso encontrar o monstro no local (o que é feito com a ajuda de pistas no cenário, que, quando coletadas o suficiente, abrem um "waypoint" para encontrar a fera). Depois disso, é preciso estudar seus movimentos e fraquezas, já que qualquer criatura pode te derrotar em poucos golpes se você for descuidado. Não há barras de vida, então o que diz se você está perto ou não de completar seu objetivo é o próprio comportamento da criatura.

Todo esse trabalho faz da aniquilação dessas criaturas algo muito recompensador. Primeiro, porque dá trabalho (e muito!), e segundo, porque aniquilá-los rende muito dinheiro e, dependendo da criatura, recursos valiosos para a obtenção de armas poderosas.

Mas, além de toda a sensação de conquista que floresce depois que você derruba uma criatura dez vezes maior do que você, há o combate. Ah, o combate. As mecânicas de luta em Monster Hunter (especialmente em MH World) são extremamente satisfatórias e diversificadas, e fiéis a um ritmo que se encontra no meio termo perfeito entre o peso de um Dark Souls e os ataques estilosos de um Devil May Cry.

O arsenal de equipamentos à disposição dos caçadores é também um dos mais variados dentro do gênero de ação. É claro que há opções convencionais como espada e escudo ou até mesmo armas de fogo (e MHW se sai tão bem como jogo de tiro em terceira pessoa como no contato direto), mas é nas armas fora do padrão que o jogo brilha mais.

Monster Hunter World

Com armas de longo e curto alcance, Monster Hunter acomoda vários estilos de jogo

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Precisei de algumas horas de jogo para tentar a sorte para descobrir que as melhores armas de Monster Hunter são as mais bizarras. São casos como a Hunting Horn, uma trompa que atordoa monstros em uma batida na cabeça e gera "notas" com combinações de ataques fortes e fracos. Com a combinação certa, você cria melodias e pode ativá-las a qualquer momento, melhorando status como o ataque de seus companheiros, ou deixando-os imunes a certos tipos de investidas dos monstros.

Outra opção sensacional é a Insect Glaive, que consiste em absorver "forças" de cada parte de um monstro temporariamente para então emendar combos saltando (você pode usar a arma como vara e se impulsionar para o ar), atacando seu inimigo sem nunca tocar os pés no chão.

E estas são apenas duas das armas - há pelo menos uma dúzia, e dentre elas há algumas com mecânicas igualmente únicas, como a Switch Axe, um misto de espada e machado que acumula energia em um modo e solta em outro, ou a Gunlance, uma lança capaz de disparar projéteis. São opções que acomodam estilos bem variados de jogo (e de jogador).

Uma vez que você entra no pique de combater, caçar monstros e melhorar seus equipamentos (e percebe que todas essas etapas do loop são extremamente bem executadas), fica bem fácil entender porque quem gosta de Monster Hunter passa centenas de horas com o jogo. O que a Capcom fez para abranger a franquia foi eliminar os excessos, e retirar barreiras que separam o jogador das partes mais interessantes.

Monster Hunter World

O gigantesco Zorah Magdaros desempenha papel importante na trama de MHW

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A principal mudança - e quem gosta da franquia já deve estar bem ciente dela - é o fato de Monster Hunter World contar com mapas sem transições de tela. Cada um dos gigantescos cenários é dividido em zonas numeradas, e nos jogos antigos, havia um carregamento ao passar de uma zona para outra. Agora, tudo carrega de uma vez só, facilitando a locomoção para os caçadores - e também para os monstros.

Se antigamente trocar de uma zona para outra significava manter-se seguro de alguma fera com a qual você batalhava, agora o cenário mudou, pois os monstros também andam livremente pelo cenário e vão te perseguir caso você fuja no meio da luta. Mudam os desafios, mas também abrem-se possibilidades novas de interação com o cenário. Em especial, um dos eventos mais espetaculares do jogo: o conflito entre dois monstros.

Dou um exemplo: durante uma partida na Wildspire Wastes, um misto de deserto e pântano, estava caçando o Jyuratodus, um monstro aquático. Em uma hora, ele começou a fugir para se recuperar, mas deu de cara com o Barroth, um dinossauro de carapaça dura que ataca com a cabeça. Ambos começaram a brigar por território, e no meio da luta chegou uma terceira fera - o dragão Rathian.

Os conflitos entre monstros são eventos comuns durante uma caçada, mas sempre impressionam pelo tamanho das criaturas envolvidas na briga e em como isso afeta instantaneamente o ritmo do jogo. Você se sente um mero bonequinho em meio a um combate de magnitude muito maior, mas ainda pode usar isso a seu favor, aproveitando a briga entre os monstros para enfraquecer aquele que você quer caçar.

Monster Hunter World
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Além de unificado, o mundo de Monster Hunter: World também é compartilhado. Não há distinção entre single-player e multiplayer e, a exemplo de jogos como Destiny, você pode convidar amigos para caçar em quartetos.

Você pode tanto formar equipes antes de sair em uma missão, ou até mesmo mandar um sinal de SOS, permitindo que outros jogadores te ajudem se você estiver apanhando de um monstro. Embora a dificuldade dos monstros aumente de acordo com o número de pessoas na equipe, unir-se a outros jogadores é uma excelente maneira de começar a jogar, e World simplifica muito o processo.

Pensando em como World usa suas duas principais novidades - o mundo sem transições e a abolição da divisão entre single-player e multiplayer - como pilares de sua experiência, é fácil entender porque este título específico será utilizado pela Capcom em sua busca por levar Monster Hunter a uma escala global. O jogo continua desafiador como os outros, mas agora fica mais fácil entender porque tanta gente gosta dele. Eu, que nunca tinha jogado um Monster Hunter na vida, entendi.