Wolfenstein II: The New Colossus é deliciosamente absurdo.

Braços biônicos desgovernados, um macaco com uma cabeça de gato transplantada, um teste de elenco para um filme nazista no planeta Vênus: a história surreal do novo título de ação da Machine Games parece ter sido escrita por alguém que chegou à Wikipédia procurando pela Segunda Guerra Mundial, mas acabou a viagem no verbete sobre LSD.

Mas, convenhamos, a lógica nunca foi exatamente o objetivo desta franquia.

Publicado pela Bethesda, The New Colossus tinha a difícil missão de dar sequência a umas das melhores surpresas do gênero de tiro em primeira pessoa dos últimos anos: Wolfenstein: The New Order, título de 2014 que trouxe uma jogabilidade frenética e divertida em um universo no qual nazistas conseguem derrotar os aliados com o uso de tecnologias futuristas.

E The New Colossus acerta em cheio em apostar exatamente na mesma fórmula de seu antecessor, trazendo o mesma jogabilidade acelerada e insana, mas com novos elementos de jogo e uma história estimulante que garantem que o game não parece apenas um déjà vu nas mãos de quem já passou pela aventura The New Order.

Em termos do enredo lisérgico, temos uma história que se passa cinco meses após o término do antecessor, quando um quase morto William "B.J." Blazkowicz é resgatado por membros da resistência após o embate final com o general Wilhelm "Deathshead" Strasse.

Na contramão do que costuma ser tradicional na franquia – como em Wolfenstein 3D, o avô dos FPS –, infelizmente, descer chumbo em nazistas não é logo a primeira coisa que você fará em The New Colossus.

Antes da ação, uma longa  – longuíssima  – sequência animada de exposição é responsável por marcar passagem desse tempo na trama, mostrando a recuperação de Blazkowicz entre flashbacks, de sua infância do protagonista e pai abusivo, e imagens do presente, onde Anya Oliwa, grávida de gêmeos, espera pela melhora do protagonista.

Divulgação/Bethesda

Mas essa melhora não é completa e isso marca parte importante de Wolfenstein II.

Apesar do maxilar perfeito intacto, Blazkowicz não é mais o Rambo de seus tempos áureos, e enfrenta agora a fúria do Terceiro Reich em uma posição de desvantagem – ainda sequelado por seu último encontro com Deathshead, o protagonista está com um pé na cova e passa grande parte da campanha com a barra de vida limitada aos 50.

Em termos de jogo, isso oferece um ótimo desafio prático ao jogador: na primeira metade do game, nos vemos frequentemente obrigados a enfrentar combates de forma mais estratégica, procurar kits de cura, armaduras e abusar de coberturas para proteção contra inimigos. Consideravelmente maiores que no jogo anterior, as fases do game também permitem diferentes abordagens e caminhos para o jogador e recompensam a exploração.

Mas a fragilidade do protagonista também traz o que parece ser um tom mais introspectivo à história de The New Colossus, com um herói que frequentemente se lembra de camaradas perdidos no passado, das pessoas de ama e – é claro – seu ódio pelos nazistas para seguir em frente sem tirar o dedo do gatilho.

Apesar de bem-vinda como nova dinâmica de jogo, o limite na barra de HP pode se mostrar uma dificuldade considerável para alguns jogadores, já que a frustração de se morrer por coisas bestas é frequente.

Isso também marca um dos mais perceptíveis tropeços do título, ainda que não grande o suficiente para acabar com sua experiência: assim como The New Order, a curva de aprendizado e de dificuldade de The New Colossus não é nada suave, marcada por um “vale” de facilidade no segundo ato, e por dois grandes e frustrantes picos de dificuldade que convidam o jogador a lançar o controle contra a televisão.

O “vale” de facilidade, por outro lado, fica por conta de outras duas novidades do game: o novo sistema de atualização das armas, que podem ser melhoradas durante a campanha com novos tipos de munição, redução de coice ou aumento de capacidade, e as chamadas “contraptions”, grupo de equipamentos especiais que podem ser liberados em missões paralelas e permitem que Blazkowicz ganhe algumas vantagens táticas na hora de enfrentar nazistas.

Para a felicidade geral de fãs de Wolfenstein, nenhum destes novos elementos prejudica no que é marca essencial da franquia: o combate. A troca de tiros em The New Colossus continua tão frenético como em seu antecessor, seja levando uma só arma nas mãos, uma arma diferente em cada mão, armas pesadas roubadas de inimigos ou nas sangrentas execuções corpo-a-corpo usando um machadinho. Matar nazistas ainda é a parte mais deliciosamente satisfatória deste game.

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Mas peraí, você falou sobre um macaco com uma cabeça de gato transplantada! Volta nisso!

Ah, sim, a história absurda de Wolfenstein II: The New Colossus.

O novo título traz a ação para o lado de cá Atlântico, onde Blazkowicz e os membros do Kreisau Circle buscam se unir a diferentes grupos da resistência nos Estados Unidos para desestabilizar o governo nazista.

The New Colossus abusa de elementos dieselpunk, teorias da conspiração e coisas sem pé nem cabeça em sua trama, misturando o mundo real com uma boa dose de ficção científica e um leve toque de paranormalidade. Não espere grandes plot twist ou eventos inesperados durante a história: a aposta da campanha é no surreal e no bom humor, não na complexidade e profundidade do enredo.

Ainda assim, novos nomes como Grace Walker, líder da célula da resistência em Nova York, e Horton Boone, uma espécie de pastor comunista de Nova Orleans, dão personalidade à história e são carismáticos o suficiente para engajar o jogador com a trama simplória e direta.

Divulgação/Bethesda

Também estimulante é a antagonista da vez: a já conhecida Irene Engel, general responsável pela manutenção do domínio nazista da América a bordo do Auzmezer – uma espécie de aeroporta-aviões que lembra bastante o Helicarrier dos Vingadores – e o tipo de personagem odioso que renova constantemente a nossa vontade de socar nazistas na cara. E já que falamos dos personagens, aqui vale uma observação: antes de começar o jogo, corra até o menu de opções e aumente a voz dos diálogos – a dublagem de The New Colossus é consideravelmente mais baixa que o som ambiente, e um boost no volume ajuda a compreender o que está sendo dito na tela.

Outro elemento que garante um pouco mais de diversidade ao título o fato de que a história não é completamente linear. Diferente do caso de The New Order, no qual uma das principais escolhas do jogador não traz nenhum grande impacto ao jogo, aqui a escolha entre Wyatt ou Fergus, repetida ao início de The New Colossus, trará mudanças sensíveis à campanha, o que inclui acesso à diferentes armas e missões.

É válido também o esforço do jogo em tentar expandir a história com o Eva’s Hammer, submarino roubado pela resistência que funciona como hub central entre missões. Na embarcação, o jogador tem a chance de interagir com NPCs para explorar suas histórias e acessar missões paralelas de assassinato com o sistema Enigma – ainda que as recompensas não sejam particularmente estimulantes.

Divulgação/Bethesda

Wolfenstein II: The New Colossus se apoia com força no sucesso Wolfenstein: The New Order e consegue repeti-lo, a mesma dinâmica insana de combate está presente e o cuidado de trazer algumas novidades de jogabilidade e bons novos personagens ajudam a não desgastar completamente a fórmula do game.

Apesar de rasa, a trama é absurda e divertida o suficiente para levar o jogador até a conclusão da história – com um desfecho catártico que deixa qualquer um pronto para continuar descendo chumbo em nazistas no que promete ser uma trilogia de jogos. Chega de nazistas e que venha o Mecha-Hitler.

Wolfenstein II: The New Colossus está disponível para o PlayStation 4, Xbox One e PC. O jogo foi testado em um PlaySation 4 padrão. Clique no nome das plataformas para conferir o preço em sua versão digital.

Nota do crítico