O sistema de franquias virou um dos assuntos do momento entre as organizações de eSports. Inspirada em ligas americanas como a NFL, de futebol americano, e a NBA, de basquete, a Riot Games adotou o mesmo sistema para League of Legends na LPL, a liga chinesa, e na NALCS, a liga americana, a partir da próxima temporada. A Blizzard também usará o sistema para a vindoura Liga de Overwatch.

Alguns dos efeitos dessas decisões já podem ser sentidos tanto no cenário competitivo do LoL quanto o de Overwatch. No jogo da Riot Games, o impacto levou quatro equipes europeias a pedir transferência de região para poder usufruir dos benefícios do novo sistema. Já a Blizzard faz exigências altas para sua competição (várias reportagens deram conta de que a desenvolvedora teria cobrado US$ 20 milhões por uma vaga na Liga), mas, em troca, promete altos retornos, inclusive para os jogadores.

Para ingressar no sistema de franquias, a equipe deve comprar sua vaga. No caso da liga americana, o valor de uma vaga custa ao menos US$ 10 milhões, de acordo com a Bloomberg, e a aquisição garante a participação da equipe na liga por pelo menos oito splits consecutivos - a permanência vai depender de seu desempenho a longo prazo.

A idéia de introduzir o sistema de franquias nas ligas de eSports é uma tentativa de criar estruturas mais sólidas para o cenário competitivo e para as equipes. Com essa mudança, as equipes serão valorizadas, vão gerar mais renda para os times por conta de ganhos com direito de imagem, e preveem mais possibilidades de patrocínio, já que as equipes participantes ocupam os holofotes de suas modalidades.

Ainda no aspecto de investimentos e renda, o salário mínimo dos jogadores que participarem da liga franqueada em LoL também será aumentado (US$ 75 mil anuais na liga americana), fazendo com que a profissionalização da carreira de cyber atleta seja ainda mais rentável.

Com todas essas mudanças acontecendo lá fora, vem a pergunta: esse tipo de sistema poderia funcionar no Brasil?

Traçando outro paralelo com o esporte tradicional, o sistema de franquias não é algo visto, por exemplo, no futebol. O sistema de franquias tradicionalmente prevê apenas um time por cidade, o que seria inviável em um país com diversas rivalidades locais. Ligas de outros esportes, como o NBB (basquete) e a LNF (futsal), adotam o sistema.

Uma das mudanças que o sistema de franquia prevê e provavelmente causaria estranhamento para o torcedor brasileiro é o fim do rebaixamento. Assim como no futebol, o CBLOL atualmente prevê que o último colocado do split seja rebaixado para o Circuito Desafiante, e isso não aconteceria caso a liga brasileira adotasse o mesmo sistema da americana, em que uma equipe só tem sua vaga retirada após terminar vários campeonatos consecutivos em penúltimo ou último lugar.

Na opinião de muitos torcedores, o fim do sistema de rebaixamento diminui a competitividade e não dá chance para novas equipes chegarem ao topo do competitivo de LoL. No anúncio oficial, a Riot rebateu o argumento dizendo os prêmios para terminar o campeonato no topo da tabela compensam a "impressão da falta de riscos" causada pela retirada do descenso. "Nós estamos criando incentivos financeiros para cada lugar da liga - quanto melhor você for, melhor será o rendimento disso."

O Circuito Desafiante americano passará a ser uma espécie de 'Liga Acadêmica', utilizada como uma espécie de preparação de jogadores com o foco em expandir as possibilidades entre as equipes, o desenvolvimento de novos talentos e mais jogos disputados, fazendo a criação e evolução de mais jogadores e mais equipes fortes.

Para entender um pouco melhor do que as equipes nacionais pensam sobre o assunto, conversamos com a Associação Brasileira de Clubes de Esports (ABCDE). Em nota, a entidade afirma que não foi procurada sobre uma possível introdução do formato no Brasil, mas acredita que é necessário incluir mais formas de fortalecer o cenário nacional: "Assim como todos da comunidade de LoL, achamos que é importante a construção de uma base sólida e duradoura para o nosso cenário."

Para Felippe Corradini, dono e CEO da atual campeã do CBLOL RED Canids, o sistema irá funcionar bem no cenário americano, mas acredita que a liga brasileira precisa de mais preparo. "No Brasil, também acreditamos que pode funcionar, mas seria necessário uma conscientização ainda maior de patrocinadores e investidores", opina.

Como proprietário de equipe, Corradini acredita, que ao se tornarem franquias, as organizações ganham força na hora de negociar com todas as partes do cenário. "Os investidores passam a ver o cenário como algo mais mais profissional e que não correm risco de “perder dinheiro” ao se aventurar no cenário de eSports. Além disso, a exposição das marcas, seja da franquia, seja dos patrocinadores, estará ainda mais em evidência, fazendo com que o cenário cresça ainda mais", diz.

Não há nenhum tipo de previsão ou suspeita da inserção do sistema de franquias no Brasil porém, de acordo com os pontos apresentados e o possível impacto na parte de profissionalização do cenário, parece ser uma medida excelente para fechar os 'buracos' ainda presentes nas relações de eSports e o olhar crítico que não o vê como profissão.