None


Mortal Kombat X é o episódio final de uma das sagas de renascimento mais marcantes da história dos games.

A violenta franquia de luta aproveitou o rastro de nostalgia deixado pelo retorno triunfante de Street Fighter para voltar aos holofotes em 2011, mas não ficou só no bom timing de lançamento: por trás da violência atualizada por gráficos realistas, o game de PlayStation 3 e Xbox 360 fez um reboot na cronologia da série, varrendo os excessos de antecessores fracassados, e introduziu um sistema de luta baseado nos títulos da década de 90, com os devidos ajustes e funcionalidades para torná-lo competitivo.

Sem o mesmo momento saudosista para se amparar, Mortal Kombat X é conservador, mas arrisca quando precisa - e acerta muito. Fiel até os ossos ao reboot de 2011, o título amplia todos os conceitos de seu antecessor ao realizar mais uma faxina no cânone da série e fazer uma única profunda mudança na jogabilidade. Mais uma vez, a NetherRealm conseguiu ir muito além da brutalidade. Um feito admirável, visto que essa é a característica mais escancarada na tela.

Diz o ditado dos fliperamas que história não importa em jogo de luta, mas a máxima não se aplica a Mortal Kombat X. Este é o prato principal do novo título da NetherRealm, cuidadosamente divulgado pela produtora, e subverte expectativas novamente. Seguindo a ótima dinâmica do MK de 2011 (e com alguns quick time events no meio), o modo é dividido em 12 capítulos, cada um protagonizado por um personagem diferente, alternando entre novatos e caras conhecidas.

O enredo se dedica a desenvolver principalmente o quarteto de estreantes: Cassie Cage, a filha de Johnny Cage e Sonya Blade; Jacqui Briggs, a filha de Jax; Takeda Takahaski, o filho de Kenshi; e Kung Jin, primo e descendente de Kung Lao. Família sempre foi um elemento presente na história do universo de MK, mas aqui ela é tratada como um ponto central da trama - algo que eu jamais imaginava ver em um game da série, ainda mais da maneira como foi apresentado: com sutileza e uma dose controlada (porém necessária) de cafonice.

A passagem de gerações proposta pela introdução dos novos personagens também dá carta branca para que os eventuais sucessores de MKX continuem o bom nível do enredo da série - algo ainda mais necessário após os eventos do game, que se alternam entre as relações familiares e a velha e boa política entre os lutadores da Terra, da Exoterra (Outworld) e do Submundo, com sua cota de traições, alianças sujas e mortes.

Impossível não comentar a versão brasileira de Mortal Kombat X, que já começou cercada de polêmica pela escolha de Pitty como a voz de Cassie Cage, na mesma estratégia sensacionalista utilizada por Battlefield: Hardline. A atuação da cantora, que já virou motivo de chacota na internet, só serviu para evidenciar o verdadeiro desastre ocorrido na localização do game - algo no qual, vale frisar, a artista é a última pessoa que pode ser culpada.

Pitty apenas fala suas frases, sem colocar entonação nem emoção, revelando que o trabalho de direção foi inexistente; e, se houve, foi ruim. Há tambem erros de tradução - especialmente nas falas de Cassie - e uma adaptação literal e malfeita dos termos em inglês. O aúdio também está mal equalizado, e algumas falas são inaudíveis. O resultado final é uma fonte inesgotável de vergonha alheia, na qual os erros são impossíveis de não perceber e acabam estragando a experiência do jogador.

No sistema de luta, Mortal Kombat X está calcado em seu antecessor. Quase tudo vem do reboot de 2011, inclusive a barra de especial que permite movimentos com mais poder, a quebra de combos e os golpes de raio-x. Uma pequena adição foi feita aqui: uma barra de stamina, que diminui com quebras de combos, esquivas rápidas e corridas (um elemento resgatado de MK3).

A principal novidade promovida pela NetherRealm se apresenta na tela de seleção de lutadores: cada personagem tem três estilos de luta diferentes, que mudam sua lista de golpes - Scorpion, por exemplo, tem uma variação que usa espadas e outra que abandona as armas em prol de invocar entidades demoníacas.

A ideia é simples e brilhante tanto no nível casual quanto no competitivo. Os estilos triplicam as opções de lutadores sem inchar o elenco (Kitana, por exemplo, tem uma variação na qual usa o bastão de Jade), nos dão a oportunidade de jogar com nossos lutadores favoritos de um jeito novo e, principalmente, conferem o maior equilíbrio entre personagens que a série já viu - um fator que deve tornar as disputas profissionais de MK deste ano ainda mais interessantes.

Nos movimentos de finalização, Mortal Kombat X atinge um novo nível de sanguinolência e brutalidade. Aparelhos digestivos puxados pela boca, colunas partidas ao meio e possivelmente todos os órgãos do corpo humano são fatiados em fatalities de impressionar até mesmo quem já está acostumado com o que MK já mostrou. Os brutalities, outro movimento clássico resgatado pela NetherRealm, abandonaram a dinâmica de “combo infinito” para se transformarem em versões mais violentas de movimentos especiais.

Em termos de conteúdo, MKX não economiza em colecionáveis e coisas a desbloquear. A kripta volta do reboot de 2011, desta vez mais como um mini-game de exploração do que como um menu glorificado. Além do modo história, o título também retorna com as tradicionais torres, que trazem uma novidade bem-vinda: as torres vivas, que servem como um “test drive” dos personagens de DLC - no dia do lançamento, era possível jogar com Goro, por exemplo.

As opções de multiplayer online também são variadas: há as lutas tradicionais, o Rei da Colina (uma espécie de "fliperama virtual" no qual quem vence fica e quem perde volta para o final de uma fila com até oito jogadores) e batalhas de torre, na qual você compete com outra pessoa para ver quem termina primeiro uma tradicional sequência de lutadores. Como o jogo acabou de ser lançado, não há muitos jogadores ainda para testar todos os modos online e também não há como saber a dinâmica das Guerras de Facção (Faction Wars), o metajogo no qual cada usuário contribui para a pontuação de um entre cinco clãs. Por isso, a crítica será atualizada posteriormente, após estes modos online serem devidamente testados.

Mortal Kombat X pode se destacar mais por seus fatalities excessivamente brutais, mas por trás deles se revela como o game mais consistente de toda a série. Com novidades pontuais que acrescentaram muito ao sistema de luta e um ajuste fino em quase todos os modos de jogo, o título se firma ainda mais como uma das principais franquias de luta da atualidade - mais pelo seu presente do que pelo seu passado. Vitória impecável.

Mortal Kombat X está disponível para PlayStation 4, Xbox One, e PC. Uma versão para PlayStation 3 e Xbox 360 será lançada no meio do ano. A versão testada foi a de PlayStation 4.

Leia mais sobre Mortal Kombat

Nota do crítico