Não quero ficar dando adeus
As coisas passando
Eu quero é passar com elas! Eu quero...
Não sou eu quem vai ficar no porto chorando,
Lamentando o eterno movimento... Movimento dos barcos, movimento... 

Trecho de "Movimento dos barcos"
Macalé-Capinam

[Águas agitadas]

Esta coluna fala bastante de Maria Bethânia. Mas é pouco. Seu trabalho merece mais! Bethânia não pára. Lança, agora, dois discos pela gravadora Biscoito Fino com o tema da água (Pirata e Mar de Sophia) e arruma mais um punhado do cancioneiro com o mesmo assunto em seu novo show (Dentro do mar tem rio). Os versos acima, de "Movimento dos barcos", traduzem facilmente a intenção de Bethânia: não há espaço para nostalgia. Seu canto de agora é parte de uma nova interpretação, uma nova carpintaria de um pulsar de idéias. Bia Lessa dirige a cantora/atriz neste sentido de dar novos sentidos. Os homeopatas dizem que a água tem memória. Para Fauzi Arap, idealizador do estilo da cantora e da concepção básica de seus shows, o caminho das águas aponta para a revisão, uma nova interpretação. Bethânia e Fauzi descobriram há décadas que a memória sempre se refaz. Nunca o que lembramos nos surge da mesma forma como guardamos. A lembrança é sempre atualizada em uma revisão constante e que pode nos trazer surpresas: é comum reencontramos com alguém do passado, lidar com uma forte e prazerosa emoção e, ao nos despedirmos nos damos conta que o encontro anterior resultara em uma briga agora esquecida. O que vale mais: a decisão anterior do rompimento ou o incrível sentimento do presente que faz esquecer o passado?

[Dentro do rio tem um mar]

A pesquisa bethaniana só confirma o que o crítico Arthur Nestrovski profetiza sobre a canção brasileira: em sua música, o Brasil dá certo! O movimento da águas evoca a continuidade, a capacidade de adaptação que perpetua a vida. Camarim após a estréia de Dentro do mar tem rio: Rita Lee, ainda meio anestesiada com o que acabara de ver e ouvir, ajoelhada, rezando junto a Bethânia proferia com evidente sinceridade que deveria rever sua carreira... Zizi Possi, rindo da amiga, consolava a roqueira. Esta, sabiamente reconhecia a grandeza do show e dizia que perdera as esperanças de conseguir a mesma coerência que Bethânia apresenta há anos. Subaé, rio que banha Santo Amaro da Purificação desaguou os baianos em Salvador, que com Chico, Milton e tantos outros dos anos 60 inventaram a MPB. Com Bethânia percebemos que a música brasileira ainda insiste em provocar impacto nos ouvintes.

[X-Men]

Eles lançaram a bomba atômica que continua provocando alterações genéticas. De volta ao planeta dos mutantes é uma seleção em dois CDs com o melhor de Os mutantes. O cuidado técnico da reedição é primoroso. A qualidade dos arranjos é tão impressionante que parece ter sido gravado hoje. Pena que não temos mais o maestro e arranjador Rogério Duprat, mestre silencioso do tom da Tropicália, inclusos Os mutantes. Se Rita Lee pretende realmente rever sua carreira é melhor começar por estes dois CDs. A roqueira ficou no porto e não seguiu o movimento dos barcos. Apaixonou-se por Roberto de Carvalho no final dos anos 70 e a brasa tranqüilizou-se numa alardeada doce vida amorosa. Nenhum problema. Mas se Lee quiser pegar carona na correnteza é só lembrar de sua toada nos versos iniciais de "Panis et circenses": "Eu quis cantar / Minha canção iluminada de sol / Soltei os panos sobre os mastros no ar". Rita faça o que fez em seu primeiro álbum com o Tutti Frutti e conclua conosco: "Atrás do porto tem uma cidade".

[O quinto elemento]

Se Os mutantes viraram um museu vivo da Tropicália, Caetano Veloso mostra como ela ainda está viva em suas inquietações atuais. A mensagem de , seu novo CD é clara: quero ser o quinto Hermano. O tema do disco é dor de corno, idéias de vingança pela desilusão amorosa, medo de envelhecer ("só eu, velho, sou feio e ninguém" em "Odeio"). Marcelo Camelo usa à vontade desta temática em suas canções para Los Hermanos. Caetano mastiga e engole o conjunto, vira um adolescente chorão e novamente brinca com o que mais sabe fazer: a ironia vestida de romantismo. Deve ser de família. A inquietação dos Velosos há quarenta anos têm tornado a frase de Nestrovski transcrita acima a mais pura realidade. Caetano fez para acompanhar a agitação dos barcos num mar rebelado pelas traições e dar adeus ao casamento desfeito. Nada melhor do que as pesquisas com o universo dos jovens que cada vez menos dão valor à instituição amorosa e que, sobretudo buscam a diversão no lugar do sofrimento.

[O generoso]

Caetano busca inspiração na juventude e um ator a vive. Paulo Autran ensina - talvez involuntariamente - o que pode ser uma vida divertida. Ele já cansou de ouvir "como está bem!", pois sabe que esta é uma frase dirigida aos sobreviventes. Ou como diz: "devo estar com o pé na cova". Paulo Autran, muito mais de 80, não é um sobrevivente, por mais que tentem fazê-lo de herói da resistência. Dá uma banana para as regras de saúde (come tudo o que não deve, fuma sem parar e nunca se exercitou), mas não deixa de transmitir que está vivo porque quer estar vivo. Se Bethânia quer ser levada pelo mar, Autran poderia ser Poseidon, o deus dos mares na mitologia grega. O avarento (volta ao Teatro Cultura Artística em São Paulo na primeira semana de 2007), de Molière, tem quase 350 anos, mas na condução do nosso maior intérprete parece ter sido escrita hoje. Seu personagem - um velho sovina que mira o casamento com uma jovem como símbolo de perpetuação da riqueza - faz gargalhar uma platéia animadíssima e repleta de jovens. Paulo Autran caçoa de qualquer babaca que tenta colocar limite de idade para a folia. Há vários jovens TV-tipo no elenco... mas adivinhem para quem é a monstruosa fila de fãs à saída do teatro...

[Diversão morta]

Andy Warhol dizia que celebridade celebra a morte. Peter Berlin caiu na cilada. That man, um documentário sobre a formação - mas que tenta esconder a decadência - de seu personagem acaba de sair em DVD nos Estados Unidos (facílima importação pela amazon.com e já vem com legendas em português!). O filme já passara na mostra do Mundo Mix/2005, mas não entrou em circuito comercial. Merecia. That man é um tratado fascinante e involuntário sobre a sexualidade pós contracultura. Peter Berlin foi e é um grande artista, mas se recusa a sair do pódio do mais gostoso de todos os tempos. A gostosura dura pouco quando é somente baseada na figura sexual que todos os marqueteiros da moda copiaram e com data de validade de 30 para as mulheres e 40 anos para os homens. Soa patético quando Peter, ainda com suas roupas colantes e o cabelo de príncipe, aos 62 anos, afirma que continua o mesmo. Nem sombra. Berlin afirma que se divertiu muito, mas é difícil imaginar que isto aconteça agora, enquanto está paralisado por um espelho que o envelhece mais do que seria necessário. Dorian Gray, o personagem de Oscar Wilde que não envelhece - apenas seu retrato - não se repete na vida real nem com todos os acordos mefistotélicos, nem com poderosos cosméticos ou as plásticas mais radicais.

[A perpetuação do sexo]

A ousadia de Peter Berlin gerou a moda das roupas agarradinhas e de músculos à mostra em uma época que homossexual tinha de ser magrinho, usar roupas rosa e ser engomadinho. Peter Berlin saía às ruas vestido de sua persona para exibições em lugares de pegação ou para simples provocação. Fazia questão de tomar ônibus e um de seus segredos era não falar. Berlin tem uma teoria que a conversa estraga o mistério do sexo. Peter diz que o único desejo não satisfeito foi encontrar alguém parecido com ele, um duplo que o fascinasse tanto como percebia que fascinava os outros. Talvez por isso sua mania de fotografia em duplo. Deve estar trepando muito pouco hoje em dia, pois no documentário não pára de falar: explica seu comportamento e tem teorias mirabolantes sobre o choque que provocou na época, extrapolando o meio gay. É só imaginar o impacto que sua figura pública trouxe nos anos 70 e para quem não conhece conferir em seu site http://www.peter-berlin.com/.

[A lei morta]

Reflexões para um Brasil que enterra a justiça nas urnas e elege o carnaval da esmola: a exposição Tesouros do Senhor de Sipán - O Esplendor da Cultura Mochica (até 7/1 na Pinacoteca do Estado/SP) viaja pelo mundo há mais de dez anos. Choca pela beleza e provocação à reflexão. Possivelmente a maior descoberta arqueológica do final do século passado, a civilização mochica - que habitou o que hoje é o Peru entre os séculos I e VII da era cristã - intriga pela beleza dos objetos e a réplica de um túmulo. Exatamente é esta a sala mais impressionante, a que reproduz a tumba de Sipán. Com ele foram enterrados três mulheres, dois homens, um guarda e um soldado, além de um cachorro e duas lhamas. Todos supostamente unidos para se encontrarem numa vida posterior. Dúvida não esclarecida: foram todos assassinados após a morte de Sipán? Suicídio voluntário? Involuntário? A força da lei ou do costume em uma civilização aparentemente tão desenvolvida para a época seria capaz deste tipo de solução?

[O movimento da lei]

Roma, a série da HBO recém lançada em DVD não faz concessões ao espectador. Aquela estética fascista de beleza, organização e glamour que Hollywood impôs ao Império Romano aqui não existe. As ruas são sujas e escuras. As pessoas, porcalhonas e rudes, mostram uma extrema preocupação com a moral ao mesmo tempo em que praticam as mais impensáveis perversões e delitos. A edição em DVD é cuidadosíssima. Há vários extras com explicações sobre hábitos e costumes da época, tentando convencer o espectador que a produção caprichou na reconstituição. Legal. Entretanto a grande questão de Roma é o surgimento da lei tal como se conhece atualmente. E sua aplicação: cumprimento e punição quando não respeitada. É engraçado pensar em Roma da época e comparar com o Brasil de hoje. É difícil não ser nostálgico de algo que nem chegamos a ter. Involuímos.

E tu, Brasil, "república irmã",
blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!

Trecho de Ultimatum, 1917,
Alberto Caieiro (Fernando Pessoa)
dito por Maria Bethânia no seu novo show Dentro do mar tem rio

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