[Mocidade transviada]

Há quase 500 anos a ópera provou que é das mais potentes formas artísticas capazes de causar impacto. La traviata (de Giuseppe Verdi, 1853), na montagem de 2005, feita no Festival de Verão de Salzburg (que sai em DVD importado pela Deutsche Grammophon), nos arrasta desde a abertura desta produção que reúne canto e representação de forma rara nos palcos líricos atuais.

Era o que já se revelava no aperitivo, a gravação ao vivo e lançada em CD no início deste ano (no Brasil, como sempre meia-boca, saiu apenas um resumo também pela DG).

Anna Netrebko, que parecia apenas bonitinha em capas de CDs e mais uma jogada de mercado, representa e canta Violeta com uma voracidade apenas suspeitada nas grandes divas do passado. Rolando Villazón faz um desesperado Alfredo, e Thomas Hampson um viril e sensual Germont pai. Todos se lançam em seus papéis como há muito tempo não se via em montagens operísticas. O trio atualiza os temas principais da ópera de Verdi: o dilema entre a opção pelo prazer da paixão e uma vida responsável, em que os valores familiares mais conservadores não deixam sobras para outras escolhas.

[Vida ideal x vida real]

Como quase toda obra do romantismo, La traviata [a transviada, aquela que deixou ou perdeu o rumo] mostra a diferença entre a inconseqüência da paixão e a verdade do cotidiano, em que o sustento, o dinheiro, é o que determina a ação. Breve resumo: a hedonista Violeta é cortejada por um insistente Alfredo, que oferece amor a quem estava acostumada apenas com relações fugazes à base de dinheiro e sexo. Alguma atualidade? Violeta é rica, mas está tuberculosa: a doença dos baladeiros da época. A moça se percebe apaixonada e topa viver a aventura diferente com Alfredo. O romance é desaprovado por Germont, o conservador pai do rapaz. Violeta resolve voltar para a antiga vida transviada [não se trata de uma garota de programa ou prostituta, mas, uma mulher mantida pelo ricaço do momento, escolhido por ela]. Alfredo a segue para humilhá-la, atirando-lhe na cara o dinheiro gasto no tempo que passaram juntos e recuperado por ele no jogo. Ao final, Violeta está pobre e só recebe a visita de pai e filho antes de morrer.

A ópera difere pouco do livro em que é baseada, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho. Mas a essência é a mesma: o casal é devorado por um amor imprevisto, que se aquece e consome na proibição. Na ópera, Alfredo quer transformar Violeta, a jovem que na busca pelo prazer já se acostumou a ter seu afeto destruído.

[Liberdade, ainda que tardia]

Em As vozes da liberdade (Bertrand Brasil), o historiador Michael Winock trata da literatura no século XIX na França. Mais do que agito no mundo das letras, a ficção desta época se prestou para dar voz às idéias socialistas - durante o governo conservador de Carlos X - que desencadearam os movimentos revolucionários de 1830, 1848 e a comuna de Paris. Neste contexto se situa a obra de Dumas Filho (1848) e La traviata (1853): a mudança de valores que cercam o amor e a família. A trágica relação do casal serve de laboratório para uma série de modificações sociais e culturais que ocorreriam ainda no século XIX, mas com explosão definitiva apenas na década de 1960, com a contracultura.

La traviata fala da paixão entre dois jovens de classes diferentes, mas com hábitos semelhantes: a entrega ao prazer total que só pode levar à morte. Violeta e Alfredo gastam o que têm e se endividam na busca desesperada de um sentido de existência que confunde doença, sacrifício e certa uma ironia que brinca com as instituições conservadoras da época.

[Um plano perfeito]

Segundo Thomas Friedman, os jovens de La traviata seriam o modelo perfeito de seus semelhantes neste início do século XXI. Em O mundo é plano (Ed. Objetiva) Friedman nos apresenta os "zippies". Depois dos hippies e dos yuppies, os zippies são aqueles jovens que estudam, especializam-se, trabalham muito, ganham pouco, moram com os pais e gastam tudo. Liberais na vida privada, mas conservadores na pública. O economista lembra que a maior parte dos jovens não tem muito com o que sonhar atualmente. Casa própria? Difícil. Celular, computador e roupas de marca são o grande sonho de consumo da moçada que empurra a constituição de uma família cada vez mais para o futuro. O sucesso profissional depende de um mercado também mais competitivo em que nem os reconhecidamente talentosos têm lugar assegurado. O jovem não acredita mais em política, nem que ele possa transformar nada. Faz parte de uma engrenagem gigantesca em que seu lugar é apenas transitório. Entretanto Friedman não é pessimista. A saída está na criatividade dos mais novos que estudam muito, são mais pacíficos que as gerações anteriores e têm um maior potencial criativo.

[Sincretismo cultural]

Se Friedman fala dos jovens que se entregam às marcas, a escritora Zadie Smith fala desta mesma geração que se espelha em uma espécie de pragmatismo cultural: o modelo é a celebridade pop. Em O caçador de autógrafos (Cia das Letras) a "garotinha" Smith, londrina ainda abaixo dos 30 anos já sabe tudo de seu ofício e convence pelo conhecimento de literatura, religião, filosofia por meio de uma enciclopédia de citações. Da mesma escola de Nick Hornby (aliás, bem mais sentimentalóide no recente Uma longa queda), de terras inglesas, Smith confirma que a referência cultural aguça e incomoda.

Faz que nos perguntemos sobre nosso lugar, atualizemos nossas referências. O caçador de autógrafos é um almanaque das celebridades do século XX. Alex-Li Tandem, um judeu-chinês (?!) chegado a drogas vive do comércio de autógrafos e sai à caça de Kitty Alexander, uma atriz-celebridade do passado que vive reclusa e, portanto não dá autógrafo. Cole Porter adorava fazer homenagens em suas canções ("You are the top" é um tratado de citações de famosos da época). As mais intrigantes canções de Caetano Veloso ("Língua", "O estrangeiro", "Podres poderes", "Baby") até hoje nos impelem para buscarmos suas referências.

Smith critica a cultura das celebridades que engole a todos sem perdão, incluindo até rabinos "ortodoxos". Mesmo assim é fácil perceber que a escritora torna perigosamente charmoso o culto à personalidade fútil e inventada pela estratégia de mercado. Smith vasculha o campo da adoração que tem seu preço: o nivelamento por baixo, a anulação do indivíduo. Adorar implica a entrega ao outro que supostamente sabe mais, tem mais e vive melhor do que nós.

[Admiração e adoração: qual a intenção?]

Com Under the iron sea o britânico grupo Keane entra para o mesmo panteão de U2 e Coldplay. Após dois anos do ótimo Hopes and fears, o rock épico do trio com base em piano, baixo e bateria fala mais uma vez de um amor introspectivo em seu segundo CD. Se em O caçador de autógrafos a adoração é a tônica, Keane - via música - prega um tom abaixo para as relações humanas. "Hamburg song" é uma súplica à simplicidade da paixão: "I don’t want to be adored... I’d like to shine a little light... I give much more than I’d ever ask for" [Eu não quero ser adorado… Eu gostaria apenas de iluminar uma pequena chama… Eu ofereço muito mais do que poderia exigir].

Adoração e admiração exigem distinção. Têm intenções diversas, assim como seus resultados. Quem se submete a adorar prefere um eterno lugar de faltante. Quem admira pode chegar a um determinado fim por inspiração do ser admirado.

O historiador da arte Michael Baxandall diz que a intenção de uma obra artística é a peculiaridade que as coisas têm de apontar para o futuro. Em Padrões de intenção (Cia das Letras) o autor defende que um quadro não pode ser analisado apenas pela mente do criador, mas também segundo o contexto da época em que foi feito.

Algumas obras atuais da literatura, da música têm criticado o consumo, o culto à celebridade, a vida vazia, mesmo sem conseguir escapar da tentação de fazer o mesmo, pois para atingir as pessoas é necessário marketing, exposição. A juventude sabe que aqueles que têm uma vida fascinante podem ser adorados, mas jamais poderão amar deste altar de veneração.

Violeta, a transviada, nos ensina em seu almejado sonho: "pobre mulher, abandonada neste populoso deserto chamado Paris!... Ah, alegria que eu não conheço, de ser amada, amando!"

[Em busca de admiração na adoração do passado]

Para quem escuta e vê Liza Minnelli hoje talvez não tenha a idéia do que a atriz, cantora e dançarina foi há mais de trinta anos, no auge de sua carreira. Nem como foi brilhante e singular sua relação com o grande coreógrafo e diretor Bob Fosse.

Agora dá para conferir, pois no mercado só havia o filme Cabaret, de 1972, extremamente bem sucedida transposição do musical da Broadway - dos anos 60 - para o cinema pelo genial Fosse.

Recém lançado, Liza with Z (do sempre audacioso selo Showtime, somente importado) nos faz ter certeza que algumas coisas permanecem suspensas eternamente no tempo. Liza foi símbolo da mulher arrojada da década de 1970. Adorada e imitada, a explosiva filha de Judy Garland parecia melhorar a herança da mãe a cada empreitada de sua carreira artística. Liza with Z foi gravado ao vivo há 34 anos e exibido na televisão americana apenas por uma noite.

Mostra uma integração de artistas do "song and dance" que pouco tem se repetido antes e depois. O casamento artístico entre Liza e Bob Fosse celebrado neste show tornam qualquer musical atual da Broadway uma festinha de escola.

Cautela: é melhor não ver os extras que mostram como Liza está atualmente. Admiração por ela, agora, passa pelo capítulo da pena. O show - extremamente bem filmado para a época e ainda atual com suas inúmeras câmeras e edição alucinante - é curto, cerca de 50 minutos. Tempo suficiente para incendiar sua televisão.

[Sexolândia]

Na cola dos filmes de Pedro Almodóvar, Transamérica escolhe personagens complicados e adoráveis para juntar diversidade às relações familiares. Se Bob Fosse estivesse vivo provavelmente produziria um musical sobre o tema. Felicity Huffman faz Bree, um transexual que vive em Los Angeles e está prestes a se submeter a uma operação definitiva para "mudança de sexo". Nas vésperas da cirurgia é incumbida de resgatar o filho adolescente, um garoto de programa, de uma delegacia em Nova York. Ela nunca imaginara ter um filho, ele nem desconfia que ela seja seu pai.

O filme é um original road movie (New York - Los Angeles) em sua estrutura e mais original ainda na abordagem deste tema cabeludo que nunca resvala para a grosseria. Para quem conhece Felicity Huffman na série Desperate housewives sabe que ela dá conta do recado.

Transamérica mostra personagens comuns, mas todos com um lado desajustado. O diretor nos conta de uma América louca, nesta louca América de Bush. A convivência com o desajuste é pacífica!

A tese é que a complicação do dia-a-dia não difere muito entre todos nós. Assuntos complexos como diversidade sexual, prostituição, incesto e toda a espécie de disfunção familiar ficam no mesmo nível. E sempre com uma esperança de solução. Raras vezes o cinema foi tão necessariamente ousado numa época em que a televisão se mostra num tempo muito à frente nos temas espinhosos do cotidiano.

[Ah, o Tempo... Tempo... Tempo...]

Bethânia fez 60 anos e terá toda sua discografia pré-gravadora Biscoito Fino relançada, num espetacular trabalho de Rodrigo Faour. Os títulos pertencentes à EMI e à Sony já estão aí. Chama a atenção o projeto comum, em nome da grande artista, sua obra transcendendo no tempo, além dos interesses puramente comerciais.

Tempos de terrorismo socializado: o PCC seqüestra um repórter da Globo e para não matá-lo exige a divulgação de um vídeo que pede pelos direitos dos presos!

O Cirque du Soleil estréia seu Saltimbanco de 15 anos com muito alarde e exagero. O que pode decepcionar: não é espetáculo para crianças muito pequenas, nem para gente em busca do superficial que o circo do título pode sugerir. No espaço enorme, às vezes um artista absolutamente singular exige toda nossa atenção. Como no ballet, tudo é intrincado e construído a partir de detalhes. Magníficos!

Sinal de um tempo que pode mudar: PCC, dólar baixo e fome cultural puseram definitivamente Sampa nos circuitos mundiais. 

"Se todos sonhamos a mesma coisa,
quer dizer que estamos acordados
"

Sonho de uma noite de verão
Shakespeare