[Madonna tribalista]  

‘Passe em casa,
To te esperando,
Estou esperando visita,
Tão impaciente e aflita

Trecho de "Passe em casa" do álbum Tribalistas.

‘O tempo passa tão vagarosamente
Para aqueles que esperam
Sem tempo para hesitar
Aqueles que correm
Parece que se divertem
Eu estou presa
Não sei o que fazer

Trecho traduzido de "Hung up", carro-chefe do último álbum de Madonna, Confessions on a dance floor.

[A impaciência da moçada]  

Antenados com as angústias juvenis, os velhos-de-guerra Madonna e os Tribalistas (Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown) compõem e cantam para os jovens, os grandes consumidores do mercado musical. Qual seria uma das maiores aflições da juventude segundo estes compositores? A espera! Não é uma exclusividade do jovem. A rapidez tomou conta do mundo e roubou horas de refeições, lazer e sono. Quem precisa dormir na era das baladas, MSN e torpedos pelo celular? Na cultura atual envelhecer é parar. Na ânsia de continuar, a espera atormenta. É sempre preciso agir. O silêncio é incômodo. Qualquer empurrão é válido: energizantes, drogas estimulantes, cafeína até altas horas.

[Geração sintética]  

Não é à toa que os maiores sonhos de consumos estão nos artefatos para a manutenção de algum estado que simule a juventude. Não só dos jovens, é claro. Sob a penumbra da noitada conseguimos imaginar que o desconhecido em frente pode ser o grande amor de nossa vida. Mal se enxerga, mas o que vale é a fantasia turbinada pelo álcool ou outras drogas (geralmente sintéticas), além do básico: vitaminas, cremes, lipoaspiração, próteses de silicone, Botox, Viagra... No final do século XIX, o naturalismo, as teorias científicas preenchiam o imaginário popular com a esperança de que a ciência descobrisse a cura de todos os males e a fórmula da felicidade eterna. Isto resultou em obras como Frankenstein, em que a crítica ao ideal de perfeição era evidente: o ser completo criado em laboratório não existe, resulta em monstro. Há diferença entre Dr. Frankenstein e a indústria da estética que invadiu nossas vidas?

[Ação sobre corpos]  

Na época de Frankenstein o mundo era dominado pelo romantismo. A cultura romântica dava o tom da vida amorosa. A utopia do ser perfeito criado pela ciência teria de se moldar à fantasia mais popular do período, em que o homem acreditava ser dominado pelas forças da natureza. Sexo era apenas decorrente do amor perfeito. Somente nos dias de hoje é assistimos todas as tentativas de ruptura desses valores. No começo do século XXI vale o sexo. Amor, romantismo, ideal de vida conjunta soam patéticos para os valores atuais de ser jovem. A assepsia ironicamente contamina o estilo de vida. Sexo não é mais sujo. Não há mais odores. Bocas freqüentam bocas com uma rapidez alucinante. Bocas freqüentam partes do corpo que anteriormente eram dedicadas às eliminações. Hoje têm pelo menos função dupla. É a aproximação de duas estéticas: a da realidade e a da pornografia. Esta é a mensagem da grande parte de nossa juventude para 2006.

[O limite da juventude]

Não só os maduros Madonna e Tribalistas estão contaminados pela idéia da juventude atual. Gabriel García Marquez vai ao fundo da questão com sua última obra-prima Memórias de minhas putas tristes. Um octogenário dono de sebo literário resolve comemorar seu aniversário com uma garota de 14 anos. Conformado com sua feiúra, o velho não acredita no amor. Mas a convivência com a jovem prostituta tem muito a ensinar. Memórias... tem como personagem um idoso que viveu como a maioria dos jovens de hoje escolhe viver. O melhor livro de 2005, curto e pontual, ensina involuntariamente que a geração baladeira pode fazer de um romance aparentemente impossível a maior das baladas: sem drogas, sem sexo, mas emocionante pela aceitação de um desafio que exige uma constância. García Márquez traça a distinção entre a paixão e o amor. Enquanto o primeiro trata do anseio de um desejo não satisfeito, o amor reflete o prazer em estar junto. A velhice assombra com uma aparente estagnação. Isto assusta, mas não necessariamente é a realidade. Enquanto a juventude tem prazo de validade muito curto, a velhice se escancara para uma promessa de diversão serena.

[Tédio juvenil]

Annette Bening é um show em Adorável Júlia. Texto de Somerset Maugham, uma das peças clássicas do repertório mundial, foi adaptada em tom histriônico por István Szabó. Agora é lançada em DVD. Anete é Júlia, grande dama do teatro londrino, 1938, que diverte a todos, mas não consegue se divertir. O marido, Jeremy Irons, sempre ótimo, é um boa vida simpático, mas que não dá bola às inquietações da esposa. Júlia, entediada, se enamora de um jovem e experimenta momentos de grande prazer. Júlia demora a reconhecer, mas quando percebe que é envolvida por um gigolô de primeira, que apenas aproveita de seu dinheiro e poder, surpreende com uma virada que mistura vingança e o prazer de finalmente conseguir se divertir, sozinha, sem necessariamente ter de divertir os outros.

[A continuidade fora de moda]

A insistência não faz mais parte do comportamento humano, desde que a finalidade seja o consumo rápido. Vale perseverar na conquista, o que não garante a aposta na continuidade de uma relação. Nem mesmo a amizade conta. "Fica-se" buscando o sexo, assim como "fica-se" com uma pessoa por identificação, interesses compartilhados, geralmente instantâneos. Um dos maiores sucessos cinematográficos do ano de 2005 foi Hitch - Conselheiro amoroso. Com uma embalagem jovem, diálogos rápidos e cáusticos, o embate entre os personagens feitos por Will Smith e Eva Mendes nos faz refletir. Ela, uma editora de revista tipo Caras. Ele, psicólogo especialista em orientação sentimental. Ambos têm os mesmos valores românticos. Querem para si uma relação estável, contínua. Mas enquanto o personagem de Eva desconfia que isto seja impossível, o de Will ainda acredita na força do amor, pelo menos para seus clientes. O filme mostra como continuar é arriscar no diferente. O aparentemente jovem de hoje é o mais conservador. O consumo dos corpos não muda nada. Apenas usa e descarta.

[No fundo do oceano, a ética da juventude]

Depois de oito anos, Titanic é lançado decentemente em DVD. O filme não perdeu seu impacto em efeitos especiais e depois do marketing agressivo que deixou em torpor meio mundo... agora podemos relaxar e embarcar na ótima história contada pela personagem Rose DeWitt Bukater. Gloria Stuart é a jovial e meio hippie centenária que dá sua versão à catástrofe. Kate Winslet carrega o filme fazendo a corajosa adolescente Rose, que vive sua mais emocionante experiência amorosa em meio à correria do salve-se-quem-puder. Titanic trata de uma pegadinha nos valores materialistas. Meio contracultura aposta que o maior valor da vida é o amor e assim acerta em uma juventude eterna com ética. Somente no final do filme é que sabemos por que a velha Rose decide se mudar com fotografias e tudo mais para o navio que tenta resgatar os tesouros do Titanic. Nada mais romântico, nada mais fora de moda.

[O fim da juventude]

Saiu de fininho, quase no final do ano uma das obras mais devastadoras da literatura atual. A linha da beleza, de Alan Hollinghurst que recebeu o Booker Prize de 2004, o mais importante prêmio literário da Inglaterra e do mundo. Trata-se de um réquiem a uma juventude transgressora, que pela hipocrisia de uma sociedade conservadora é empurrada para a clandestinidade, à solidão e à morte. A história se passa na Inglaterra, de 1983 a 1987, durante o governo de Margareth Tatcher. Nick, o protagonista de 21 anos, é homossexual recém-assumido morando durante uma temporada de estudos na casa do heterossexual Toby, seu amigo de faculdade - a quem ama, mas não é correspondido. Toby é filho de um importante político ligado a Tatcher. A família é liberal e Nick tem permissão para trazer um possível namorado para a casa. Não é exatamente o que acontece. O livro é dividido em três partes. Na primeira, Nick é um doce garoto apaixonado, na segunda se transforma em um cínico hedonista e na terceira a vida vem lhe cobrar o preço por suas atitudes impulsivas. A falta de comunicação, a vida de aparências, o cinismo e uma constante mágoa velada fazem que os acontecimentos de A linha da beleza sejam aflitivamente próximos de nós. Os gays poderiam reclamar do retrato de uma juventude baladeira inconseqüente, mas não é a proposta do livro. Hollinghurst mostra como é próxima a hipocrisia do falso moralismo via política da falsa e estéril vida voltada só para a satisfação do desejo. Não sobra nada.

[Tempo, tempo, tempo, tempo...]

Maria Bethânia lançou seu último DVD do show homônimo encerrando ano e temporada. Já comentamos sobre o espetáculo e a forte impressão que nos causou. Revê-lo em vídeo acorda novas emoções, e reafirma o lugar único desta artista tão singular. Quem pararia de cantar, num espetáculo musical para recitar quase cinco minutos de poesia de Vinícius? Toda a platéia em silêncio de veneração e explodindo - corações - em aplausos comovidos... é de se ver e ouvir! A Biscoito Fino mais uma vez acerta, o DVD é widescreen anamórfico 16X9, som DTS, legendas em várias línguas... e com um extra delicioso: Bethânia e o maestro Jaime Allen discutindo música, poesia, vida, na casa da reservadíssima artista. Um bem-estar geral.

[Música é perfume? Música e perfume!]

A metáfora espontânea de Bethânia numa das entrevistas do filme de Georges Gachot serviu de título à película. O filme é estrangeiro, com um olhar que pode interessar muito a europeus mas pouco reflete do Brasil para brasileiros ("o Brazil não conhece o Brasil", já cantou Elis), ao menos os que se ligam na forma de expressão artística de Bethânia. Mostrar os subúrbios do Rio, as pessoas penduradas em ônibus, a moça negra na janela, uma baía da Guanabara feia - a lá Levi-Strauss, que comentou a semelhança entre a baía e a boca desdentada de um velho! - Santo Amaro da Purificação é até mais privilegiada no filme pela presença de Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia, esperta a Senhora e mais sábia que muitos antropólogos. O comentário sobre os filhos famosos não poderia ser mais adequado: eles fazem o que gostam e são felizes assim, meus outros filhos também... e o comentário blasé: é, ela sempre gostou de cantar!

O filme vai além e como já se disse, o diretor não é da galeria dos fãs e o resultado é muito bom: o carisma de Bethânia ressalta e ocupa o espaço pleno.

[Como dizia o poeta...]

É impossível não refletir com a poesia de Vinícius. Quando Fernando Pessoa nos empurra para um espaço interno da angústia, algo solipsista, Vinícius nos puxa para fora e nos dá aos outros:

  • É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe.
    É assim como a luz no coração... mas pra fazer um samba com beleza,
    É preciso um bocado de tristeza. Senão, não se faz um samba não...

  • O bom samba é uma forma de oração: porque o samba é a tristeza que balança.
    E a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não...

  • Ponha um pouco de amor numa cadência, e vai ver que ninguém no mundo vence
    a beleza de um samba, não: porque o samba nasceu lá na Bahia,
    e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração!

 

‘O resto é silêncio
Hamlet
Shakespeare

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