Ao contrário de muitas pessoas, eu não faço ideia de qual foi o primeiro videogame que joguei. Não sei qual foi meu primeiro contato com o meio, mas sei quando eu me apaixonei por ele. Eu estava jogando Super Mario 64 e explorando o castelo da Princesa Peach. Lá, você pula dentro de quadros e eles te levam para diferentes mundos onde Mario deve coletar as estrelas. Em um determinado momento, eu achava que tinha completado todos os quadros de uma área, quando de repente reparei algo. Havia um quadro invisível em uma parede, à primeira vista vazia, que só podia ser visto com um espelho. Pulei naquela direção, e um novo mundo de neve estava agora à minha disposição.

Isso é algo incrivelmente simples, mas eu, ainda um novato em videogames, classifiquei como uma memória inesquecível. Quando eu penso naquele jogo, ainda um dos meus favoritos, é esse momento que me vem na cabeça. Depois que isso aconteceu, minha mente não podia parar de pensar coisas como "que outros segredos eu não percebi?" ou "será que tem mais quadros escondidos?" e assim em diante. Aquele momento significou, pra mim, que tudo era possível.

Hoje em dia, momentos assim são cada vez mais raros. Trabalhar com notícias de games todo dia significa que um trailer ou informação dada por desenvolvedores raramente passa batido. Normalmente eu entro em um jogo já sabendo o que esperar, e até mesmo se ele deve ser bom ou não. Um jogo só me surpreende de forma genuína se os desenvolvedores propositalmente esconderem algo na divulgação. Eu não estou reclamando, são ossos do ofício.

Outra consequência que vem com esse trabalho é que muitas vezes você tem, na mesma semana, notícias tristes como essa e essa. É difícil ficar animado com a indústria, às vezes. Enquanto desenvolvedores pensam em games como arte, está cada vez mais claro que os executivos, os homens do dinheiro, só pensam neles como produtos. Se um jogo não estiver relacionado às palavras "eSports", "microtransações", "loot boxes" e especialmente "serviço", não há garantia de que ele irá sobreviver hoje em dia. Um ambiente que deveria abraçar todos os tipos de games e celebrar essa variedade agora está cada vez mais interessado apenas em seguir modelos que já renderam lucro para outros. É triste.

Eu sei que essa introdução está longa, então deixe-me chegar ao que interessa. Em meio a tudo isso que expliquei acima, me deixa muito feliz que, com inúmeros momentos genuinamente surpreendentes, Super Mario Odyssey me lembrou por que eu amo videogames.

Retornando ao gameplay 3D com um jogo que, desde o começo, parece ser o sucessor espiritual de Mario 64, a Nintendo construiu uma nova aventura para seu principal mascote que celebra do jeito certo a rica história que ele acumulou nos últimos anos e, ao mesmo tempo, faz jus à tudo isso mantendo a criatividade como seu principal diferencial. Cada mundo traz algo novo, algo que em muitos casos poderia ser o principal gancho de um jogo inteiro do Mario, e eu nunca soube o que esperar. Como foi todos aqueles anos atrás quando eu me apaixonei por este meio, tudo era possível.

Super Mario Odyssey me lembrou por que eu amo videogames

Peach foi sequestrada pelo Bowser novamente, e desta vez ele quer um casamento. Felizmente, Mario tem um novo amigo para ajudá-lo nesta missão de resgate, que envolve coletar luas e perseguir o vilão ao longo de diversos mundos variados, alguns familiares e outros totalmente novos. Cappy é um chapéu voador que pode mudar de forma e ser usado como uma ferramenta de "capturar" inimigos. Jogue-o em algo ou alguém, e Mario será transferido para este alvo, que por sua vez agora terá o tradicional boné vermelho e bigode do mascote da Nintendo.

Toda vez que isso acontece, você essencialmente passa a jogar Odyssey com aquele personagem, e pode fazer tudo que ele faz. Você pode voar e explodir como o Bullet Bill, usar o peso de destruição dos Chain Chomps ou até mesmo cuspir veneno como uma Piranha Plant. E isso são apenas os nomes conhecidos. A Nintendo apresenta novos tipos de criaturas, inimigos e objetos para capturar. Cada um traz uma nova mecânica e, consequentemente, uma nova possibilidade.

Do nada, aquela moeda roxa que estava no meio da lava quente ou aquela lua no topo de uma plataforma que nem o mais alto pulo alcança estavam acessíveis. Durante minhas mais de 25 horas com o jogo, o mesmo ciclo se repetiu diversas vezes. Eu encontrava algo escondido, mas não conseguia chegar lá. A altura, distância ou obstáculos no caminho me impediam. Depois de tentar e tentar, eu resolvia continuar a explorar. E então, alguns minutos depois, lá estava um inimigo com a exata habilidade que eu precisava. Em um instante, eu podia fazer algo novo, ir para um novo lugar, ser algo novo. A lista do que era possível havia crescido novamente.

Seria suficiente se a Nintendo trouxesse uma mecânica nova por fase, mas ela não está satisfeita com isso. Parece que os desenvolvedores abriram a caixa de brinquedos, e tudo que funcionava com a mecânica de capturar de Cappy foi adicionado em Odyssey. Normalmente, cada mundo tem uma nova mecânica que serve como principal (no mundo aquático, isso seria controlar um peixe, por exemplo), mas o jogo não se limita à ela.

Por conta da quantidade de personagens que podem ser capturados, Odyssey também parece ser uma celebração da história e mitologia de Super Mario Bros., dando o holofote para figuras conhecidas como os Goombas, Lava Bubbles e outros. Agora, ao invés de pisar neles, você está jogando com eles. O mundo e os personagens de Odyssey são, tanto quanto o próprio Mario, a estrela desta nova aventura.

Adicione a isso mundos amplos e profundos, e você tem uma receita de sucesso. Os reinos de Mario Odyssey são tão variados quanto seus habitantes, oferecendo inúmeras oportunidades de usar as habilidades que os personagens daquela área trazem consigo e deixando você sempre instigado para encontrar mais luas, moedas e corações. Rapidamente, eu me encontrei no mesmo estado que 64 me deixou. Olhos atentos, procurando em cada cantinho da fase por algo que eu não tinha visto ou feito antes. E constantemente, a Nintendo recompensou a minha curiosidade com sua criatividade.

Odyssey parece ser uma celebração da história e mitologia de Super Mario Bros.

Estes mundos, também, muitas vezes rendiam um jogo inteiro. Eles são tão diferentes que colocá-los no mesmo jogo chega até a ser estranho. De um lado, New Donk City traz humanos relativamente realistas, taxis e edifícios. Já Luncheon Kingdom é totalmente colorido, tem garfos falantes e a lava é uma calda quente que, aos meus olhos, deve ter gosto de morango. Variedade é a palavra chave. Para supreender o jogador com algo novo a todo momento, a Nintendo jogou qualquer coerência temática fora.

E Odyssey é melhor por isso. Este jogo, às vezes, parece ser a volta olímpica da Nintendo depois de um primeiro ano fabuloso do Switch. É como se ela estivesse correndo por aí, exibindo sua medalha de campeã e nos lembrando que ela não conquistou isso à toa. Primeiro, vá para este mundo totalmente lindo e com um design primoroso. Agora vá para outro mundo visualmente impressionante e perfeitamente desenhado, mas totalmente diferente do anterior. Cada um recheado de mecânicas novas e segredos a mil.

Isto dá a Mario Odyssey um certo desequilíbrio e anarquia. A ordem foi sacrificada em nome do progresso, e isso liberta tanto o jogo quanto o jogador. Por que se limitar a usar apenas uma mecânica ou ter um tipo de fase? A Nintendo escolheu dar aos jogadores o mesmo acesso ilimitado às mecânicas e criaturas da franquia Mario Bros. que ela deu aos desenvolvedores quando permitiu que um jogo onde quase tudo pode ser um personagem jogável fosse feito. A liberdade, aqui, é sinônimo de segredos, mistérios e possibilidades.

Aqui está uma passagem secreta para outro mundo, ou um local para depositar aquela semente que você viu há horas atrás quando começou a fase, ou um personagem que vai te deixar alcançar aquela lua. Aqui está algo novo, vá e se divirta com isso.

A ordem foi sacrificada em nome do progresso

Claro, há alguns padrões que se repetem em todas as fases, mas se considerarmos apenas a quantidade de formas através das quais é possível coletar luas, Odyssey já mostra uma gama variada de mecânicas quase inacreditável. Pense assim: para cada mecânica que um personagem te dá, há pelo menos uma lua ou moeda que só pode ser coletada usando este recurso específico. As recompensas vêm de todo jeito, à toda hora.

Conquistar as luas "principais" da campanha não é muito difícil. Eu sempre obtive as quantidades mínimas necessárias para partir para a próxima fase simplesmente indo em direção ao objetivo daquela fase específica e fazendo as tarefas que o jogo apresentava neste caminho. Mas isso é como colocar apenas o dedo para ver a temperatura da água ao invés de mergulhar de cabeça neste mar de glória. Algumas luas espalhadas pelos reinos requerem que a criatividade do jogaro ao usar as mecânicas seja tão grande quanto a da Nintendo ao desenhá-las.

Mas, muitas vezes, a Nintendo também vai permitir que jogadores familiarizados com as habilidades principais de Mario e os diferentes tipos de pulo disponíveis consigam alcançar estes objetivos sem capturar outro personagem. Talvez você consiga chegar lá usando uma sequência elaborada e difícil de movimentos, como correr, pular depois de se agachar por um segundo, jogar o chapéu e mergulhar nele, o que faz Mario "quicar" em Cappy e continuar voando.

Se isso soa complicado, é por que é, mas conforme eu fui jogando Odyssey e ficando confortável com os controles (que mais uma vez trazem toda a precisão e velocidade de resposta que você pode desejar de um Mario), fazer essas acrobacias passou a ser algo que eu me desafiei a fazer. Quando eu dominava uma certa sequência, ver que o jogo não proibia o meu uso dela, mas me recompensava com algo que eu antes achava ser impossível de obter foi sempre um motivo para sorrir.

A única hora em que o jogo perde um pouco dessa precisão mecânica é no uso de controles de movimentos, que normalmente envolvem balançar os Joy-Con de uma determinada maneira. Jogando na TV, com o Pro Controller na mão, isso não me incomodou muito, mas no modo portátil onde os Joy-Con estão literalmente atrelados à tela, era impossível fazer a movimentação e continuar vendo o jogo claramente. Um erro em meio a um mar de acertos.

As descobertas em Super Mario Odyssey nunca param. Assim como outros games 3D do personagem, os mundos são áreas abertas com pequenos objetivos dentro delas. Salas escondidas muitas vezes oferecem desafios voltados especificamente para os pulos do mascote, canos pixelizados trazem fases 2D que transformam o jogo em algo saído diretamente do NES (mas com toda a beleza gráfica que o Switch oferece) e por aí vai. É impossível perambular pelos reinos sem encontrar algo.

Eu vi os créditos de Mario Odyssey pela primeira vez com 380 luas coletadas, e há pelo menos 400 mais disponíveis por aí. Ao coletar 250, um novo mundo foi desbloqueado. Algo novo abre com 500 luas, e eu não sei o que mais pode estar esperando por mim. Assim como The Legend of Zelda: Breath of the Wild, este é um jogo que dá ao dono do Nintendo Switch motivos para jogar por semanas, ou até meses.

O desenvolvedores dos mais diversos games que existem hoje em dia sempre têm objetivos diferentes com seu trabalho. As pessoas que criam FIFA querem que você se sinta parte do mundo do futebol internacional, enquanto os criadores de Outlast estão procurando te assustar sempre que possível. Ao fazer Breath of The Wild, a Nintendo desafiou o jogador a ser criativo tirando as amarras tradicionais da franquia Zelda, com Pokémon ela quer reproduzir a alegria de colecionar dentro de um ambiente com monstrinhos fofos, poderosos e fantásticos.

Eu não sei como foi o desenvolvimento de Super Mario Odyssey, mas se eu tivesse que chutar, diria que o objetivo da Nintendo ao criar este jogo foi nos fazer sorrir. Foi isso que aconteceu comigo durante todo o meu tempo com o jogo, e que deve continuar sendo verdade enquanto parto na busca pelo 100%. Eu estava pulando, explorando, descobrindo e conquistando. Mas acima de tudo, eu estava sorrindo.

Super Mario Odyssey está disponível para Nintendo Switch. Clique aqui para ver o preço do jogo em seu formato digital.

Nota do crítico