Histórias Extraordinárias
FERNANDO BONASSI
Conrad
Editora
Sangue Ruim
Joe Coleman - Conrad

Em meio ao mercado dominado por super-heróis, mangás e romances de mistério focados em seitas místicas, dois livros ilustrados lançados recentemente pela Conrad Editora constituem uma excelente chance de se diversificar a leitura. Sangue Ruim, de Joe Coleman - um dos artistas mais talentosos da cena alternativa - e Histórias Extraordinárias, do dramaturgo Fernando Bonassi - co-roteirista de filmes como Carandiru e Cazuza - com desenhos do quadrinhista Caeto, têm acabamento impecável e são dignos de atenção justamente por fugir dos padrões de normalidade a que estamos acostumados.

Sangue Ruim é herdeiro direto de revistas da década de 1940 que traziam histórias de crimes reais. Em quatro contos, o autor nos presenteia com uma exposição visceral do pior que a humanidade pode produzir. "É inútil resistir - autobiografia de Jack Black" começa com um criminoso que se deliciava com as histórias de Jesse James quando criança, e levou uma vida de assaltos, perseguições e fugas, tudo regado a violência sem limites. "Carl Panzram", por seu turno, é responsável pela morte de 21 pessoas, além de ter praticado sodomia com mais de mil homens. As narrativas não seguem a tendência contemporânea de humanizar os criminosos e conquistar a simpatia do leitor. Pelo contrário, os canalhas são vistos como canalhas e por isso suas histórias impressionam. Ainda assim, são apresentadas reminiscências de suas infâncias que, se não justificam, podem dar uma visão diferenciada às atrocidades cometidas.

Panzram, apesar de sua vocação para a maldade, era surrado por catequistas cristãos que buscavam convertê-lo durante a juventude. Aprendeu tudo sobre a religião, e decidiu que o que queria mesmo era vingança contra qualquer integrante da sociedade, principalmente os fracos. Entre estes, um garoto de 11 anos, que o assassino sem remorso sodomizou e matou, deixando seu cérebro saindo pelas orelhas. Todavia, a besta humana também enfrentou a justiça inúmeras vezes. Numa das vezes em que foi preso, quebrou os dois tornozelos, fraturou a coluna e perdeu um testículo. Outro conto do livro é "Bertha Vagão de Trem", sobre uma mulher de 30 anos na época da Grande Depressão, criminosa com senso de honra numa história tocante. Preferiu passar 60 dias na prisão a ceder o corpo. As ilustrações de Coleman são um deleite à parte. Seu estilo é bizarro, grosseiro e detalhista, perfeito para as situações de desespero, violência e sexo apresentadas. Com o conjunto, temos uma experiência única.

"Vidas paralelas: a incrível história de Marileide e Michael Jackson" é o grande destaque de Histórias Extraordinárias. O conto narra as desventuras de Marileide Lima, comerciária de 20 anos que é totalmente vidrada pelo fenômeno pop Michael Jackson, a ponto de roubar jornais para montar um álbum de recortes sobre o ídolo - obsessão completa. Em paralelo, como já indica o título, acompanhamos também o cotidiano do cantor, apresentado como uma figura solitária e, como não poderia deixar de ser, afeito a crianças. Enquanto ela vê um chapéu de vaqueiro na vitrine de uma loja, por exemplo, ele aprecia o chapéu que usará no show Vaqueiro do Futuro. Conforme se desenvolve a narrativa, aumenta o desejo da protagonista por Jackson. Sonha com ele e escreve cartas, mas não tem dinheiro de enviá-las. Até que chega a notícia da turnê no Brasil, e Marileide investe numa idéia insuspeita. Procura um terreiro: com um fio de cabelo ou um pedaço de roupa do astro, eles se casariam.

Impossível não notar a semelhança temática com o filme Meu Encontro com Drew Barrymore, recentemente exibido no Festival do Rio. Ambos tratam do fascínio exagerado por artistas de destaque na mídia, do efeito que exercem na mente de seus fãs e até que ponto estes podem chegar em nome da paixão descabida. O filme, porém, ainda transmite uma mensagem de otimismo e perseverança na busca de um sonho. Já o conto de Bonassi beira mesmo o escracho, expondo o ridículo de vidas sem perspectivas. Não que deva ser visto com tanta crueldade, no entanto. Temos, essencialmente, uma história que entretém, cativa e provoca apreensão até o desfecho. Sendo piedade ou simpatia o sentimento do leitor pelos personagens, é certo que ele não ficará indiferente. O cuidado na elaboração das personalidades e atitudes imprevistas garante o envolvimento emocional e muitas risadas.

Os outros dois contos do livro, "O incrível menino preso na fotografia" e "Eu não sou cachorro!", também são contundentes, embora de leitura mais pesada. O primeiro trata de um homem preso numa foto de seu álbum de escola, tirada quando tinha 12 anos, na década de 1970. Passado e presente se misturam de forma angustiante. Seguramente, não temos uma visão da adolescência como a da série "O Diário de Débora". Entre a incompreensão da alma humana e comentários sobre o regime militar, o tom é sufocante. "Eu não sou cachorro!" foi escrito originalmente para uma apresentação oral, mas mantém o impacto na página impressa. A partir das reflexões de um homem que se compara a um cão, aborda temas como nosso papel na sociedade, cultura e sexualidade. As ilustrações de Caeto enriquecem o livro, com um traço pouco convencional, ousadia e criatividade. Histórias Extraordinárias é literatura rápida e marcante, que diverte e nos desafia.