Quando Overwatch apareceu no telão da BlizzCon 2014, o segundo cenário mostrado foi o Rio de Janeiro. Por isso, quando entrei na sala de entrevista para falar com os desenvolvedores do jogo, não havia como não perguntar sobre a presença do Brasil no título. No meio de sorrisos e olhares suspeitos, o três gaguejaram e deram a resposta protocolar: "amamos o Brasil, seria um ótimo lugar para levar Overwatch, mas não temos nada para anunciar. Vamos ver o que o virá mais na frente", disse Scott Mercer, designer chefe do projeto.

Não é tão difícil imaginar que a Blizzard explorará o Brasil em um futuro próximo ao jogar Overwatch - um tracer pelos morros da capital fluminense, por exemplo, parece encaixar bem com o estilo sugerido. Fato, porém, é que a desenvolvedora quer tornar o título um reflexo da sua dominação global que começou com Warcraft. "Queremos representar diversos lugares do planeta na construção dos mapas. A história do jogo se passa em um futuro não tão distante para que possamos fazer cenários reconhecíveis, onde as pessoas se sintam em casa e vejam lugares pelos quais já passaram", disse Michael Elliot, diretor técnico sênior do título.

A ideia de tornar o jogo uma experiência pessoal passa muito pelo estilo gráfico. Por isso, a Blizzard decidiu trocar a truculência de seus orcs por seres mais amistosos. A mistura resultou em personagens que parecem ter saído de um filme da Pixar com influência japonesa. Apesar da semelhança, Bill Petras, diretor de arte, disse que não houve nenhuma inspiração vinda do estúdio da Disney. "Não temos a influência de um local específico, apenas quisemos fazer algo que qualquer jogador, independente do gênero e idade, conseguisse se relacionar", disse.

De imediato, o assunto do sexismo nos games, vigente devido aos casos do Gamer Gate, vem à tona e a resposta pronta chega junto. "Não mudamos nada em nosso processo por isso. Nós sempre quisemos fazer coisas para todos se identificarem. Seja do sexo masculino ou feminino", completou Petras, seguido por um reforço de Mercer: "não queremos distinguir isso os personagens devido ao diferenciais de gênero, mas em relação ao estilo e de uma forma que possa atender aos desejos de todos os nossos fãs". Ainda que tenham a resposta pronta na ponta da língua, essa reação não condiz com a postura da empresa em relação a Overwatch. Colocar uma heroína como personagem central de seu trailer de abertura e não apelar tanto para as curvas e decotes nos primeiros gameplays é algo a se destacar. Além, é claro, das declarações dos líderes da empresa na abertura da BlizzCon 2014.

O enredo do jogo também é uma outra mudança importante na trajetória da Blizzard. Overwatch não terá um modo para um jogador - ao menos não por enquanto, pois a intenção é dar foco ao multiplayer. Por isso, o modo de contar a história dará espaço para a empresa inventar novas formas e combinações de narrativa. "Vamos fazer produções em vídeo e outras mídias que contarão os acontecimentos de Overwatch. Queremos que as pessoas estejam nos mapas e consigam ver pequenas referências à história que eles só conhecerão se tiverem acompanhado a expansão do universo em outras mídias - e aí temos a liberdade de usar livros, filmes e muitas outras coisas", disse Michael Elliot.

Mesmo com todas as atitudes que demonstram alternâncias na Blizzard, Overwatch continua na essência um jogo com a identidade da empresa. "Esse é um jogo muito importante para nós, claro, mas no fundo é apenas a nossa maneira de ver o gênero em primeira pessoa. Quando decidimos faze-lo foi fácil de avançar no projeto pois nós amamos de tiro. Jogo muito Call of Duty, Battlefield, Team Fortress e semelhantes, mas não queremos comparações. Essa aqui é a nossa contribuição para o mercado. Espero que os fãs gostem e nos ajudem a construir o melhor jogo possível", falou Scott.

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