Com a data de publicação de Harry Potter and the Deathly Hallows marcada (21/7 para a versão em inglês), o Omelete conversou mais uma vez com Lia Wyler, tradutora da série no Brasil. No cardápio, o trabalho de tradução e o significado do título da última aventura de Harry Potter.

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Lia Wyler

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Recentemente, você e outros tradutores de Harry Potter foram entrevistados pelo jornal britânico Guardian Unlimited. A fama da série deu mais visibilidade aos tradutores?

Não dei entrevista alguma, não conheço o jornalista, nem conheço ninguém que o conheça.  O artigo, que me foi enviado por uma colega que mora na Grã Bretanha, foi uma total surpresa para mim - e uma boa surpresa -, porque destaca e comenta favoravelmente o meu trabalho e cita o meu nome. 
Sem dúvida, a série trouxe visibilidade à tradução no mundo inteiro possibilitando assim uma discussão mais ampla sobre o mérito e a remuneração dos tradutores - um efeito colateral importante. O maior efeito da série, porém, foi reintroduzir a leitura-entretenimento na vida dos jovens de todas as idades.

Qual foi sua primeira impressão do título Harry Potter and the Deathly Hallows?

De admiração: mais uma vez J.K.Rowling obriga seus tradutores a uma exaustiva ginástica mental para responder às muitas perguntas que o título suscita. Muita gente não percebeu que "Hallows" está no plural o que lhe dá uma significação especial. Mas sem conhecer o conteúdo do livro fica difícil determinar a que Hallows a autora está se referindo. O meu palpite é que esteja falando de insígnias de poder, de relíquias ancestrais. 

A partir da divulgação do título, os leitores apostavam que o livro sairia em 2007. Você também começou a pensar que sua agenda seria tomada pelo último livro?

Entre as pessoas que trabalham com o Harry Potter há uma expectativa de receber um livro novo a cada dois anos. Se o último foi em 2005...

Hallows é uma palavra que aparece na lenda arturiana do Rei Pescador, que guarda o Graal, um prato, uma espada e uma lança, e sabemos que Harry busca os objetos que faltam para a destruição de Voldemort. Essa foi uma de suas fontes de pesquisa para o título?

Não poderia deixar de ser, mas reli também as várias lendas celtas que citam tais objetos. Nos livros da série já publicados encontramos uma espada com poderes mágicos que pertenceu ao fundador da Grifinória, Godric Griyffindor. E o muito falado medalhão, talvez? Quais serão os demais objetos mágicos ainda não citados?

Joanne Rowling disse que revelaria muito do enredo se explicasse o significado de Hallows no título. Embora seja ainda um título provisório, como você chegou à opção Insígnias, de Harry Potter e as Insígnias Mortais?

Complementando: fiz uma pesquisa nos dicionários da língua portuguesa para encontrar uma palavra que significasse os objetos usados por aquele que detém o poder em uma sociedade e "insígnias" foi o termo mais genérico que encontrei. Veja no Houaiss: "sinal distintivo que é atributo de poder, de dignidade, de posto, de comando, de função, de classe, de corporação, de confraria etc.; símbolo, emblema, divisa". 

Após seis livros, três deles bastante longos, você já desenvolveu o melhor método para trabalhar com Harry Potter ou há alguma alteração que você pretende implantar no último volume?

Acho que trabalharei como sempre: traduzir, cotejar, mandar para o copidesque, rever alterações feitas, fazer alguma outra que me ocorra, e re-encaminhar à editoria. 

Muita gente acha que Harry vai morrer no final da história. O que você acha?

Acho melhor eu não achar nada e ir saboreando aos poucos as soluções que a Rowling deu às várias pendências. O tradutor não é diferente dos outros leitores, é apenas um leitor mais atento, porque precisa entender cada palavra e cada imagem usada. Não pode saltar por cima de nada para seguir adiante e matar sua curiosidade como alguém que está lendo o livro por diversão. 

Quantas palavras você criou para a série até o momento?

Não sei. Talvez o número dado pelo Guardian - 440 recriações - esteja correto. No meu glossário tenho mil e tantas, mas na realidade a grande maioria são traduções exatas ou aproximadas, bem achadas é verdade, mas não são palavras inexistentes em nossa língua.

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