Nós temos a sorte de viver em uma época em que desenvolvedores tem espaço suficiente para modelar seus jogos sem se preocupar tanto com o tamanho total do mercado: existem jogos enormes, com o potencial de oferecer centenas de horas de jogabilidade com múltiplas histórias e personagens coadjuvantes que se entrelaçam; há também jogos com um grande número de variáveis, que podem ser atravessados múltiplas vezes e ainda oferecer desafios diferente aos jogadores; e, é claro, existem ainda aqueles títulos focados no aspecto multiplayer, nos quais a graça está em enfrentar outros jogadores, estejam eles onde estiverem.

Hellblade: Senua’s Sacrifice, da Ninja Theory, não se encaixa em nenhum destes cenários. O jogo é uma experiência linear, introspectiva e sem muito potencial para ser repetida várias vezes para quem busca diversidade. E todos esses elementos juntos – ou melhor, a ausência deles – é o que fazem do título uma experiência que vale a pena: um mergulho profundo em um universo hermético e focado em uma única personagem, mas que intriga e que agarra o jogador pela mão – e só solta uma vez que a história chegou ao fim.

Em Hellblade, o jogador acompanha a protagonista Senua, uma guerreira celta que deixa o arquipélago de Orkney rumo às terras nórdicas. É uma jornada que Senua enfrenta sozinha, mas é dificilmente uma jornada solitária: desde a juventude, Senua sofre com um transtorno psiquiátrico que se manifesta na forma de alucinações visuais e sonoras que constantemente a acompanham pelo caminho.

O motivo de Senua ter navegado para tão longe de casa é o assassinato de seu amado, Dillion, vítima de saqueadores nórdicos. A alma do rapaz teria sido carregada para as mãos de Hel, deusa dos mortos da mitologia nórdica. Perturbada por esta tragédia, Senua não vê alternativa, a não ser partir para o reino dos mortos de Helheim, na tentativa de barganhar a divindade pela libertação da alma de seu parceiro.

Apesar de estar fisicamente em terras desconhecidas, grande parte da jornada percorrida e desafios enfrentados por Senua está em outro plano. Um mantra repetido múltiplas vezes pela história é “As batalhas mais difíceis são enfrentadas na mente”, que representa bem o esforço da protagonista para enfrentar os sintomas de sua psicose enquanto avança na jornada.

Hellblade

As manifestações do transtorno de Senua são o primeiro grande mérito de Hellblade e do time de desenvolvedores da Ninja Theory, que trabalhou próximo a pessoas que sofrem com psicose para um retrato respeitoso e fiel do que significa enfrentar essa doença no cotidiano.

O resultado de todo esse cuidado e pesquisa se refelte nas vozes que martelam na cabeça de Senua – e consequentemente, do jogador – seja para insultar a personagem (“fraca”, “medrosa”, “burra”), seja para incentivá-la na jornada (“ela é uma grande guerreira”, “esse é o caminho”).

As vozes também não estão lá só por enfeite. Em uma aventura que sabiamente opta por extinguir todos os “penduricalhos” tradicionais, como barra de vida, minimapa ou uma grande seta apontando a direção do objetivo, o jogador logo aprende a confiar e desconfiar do que as vozes falam, já que são elas que sugerem o que precisa ser feito para avançar na história.

É uma experiência balanceada, que não te deixa com a sensação de estar só sentado no banco do passageiro de um carro em movimento, mas também traz o mínimo de orientações para que você não fique rodando por aí sem saber exatamente o que fazer.

Hellblade

Além das vozes sem nome, há ainda uma série de outras vozes que são fruto da psicose da personagem, mas fazem o papel de coadjuvantes e NPCs do jogo. Estes personagens, que de uma forma ou outra estão ligados ao passado de Senua, são os responsáveis por acompanhar a protagonista em sua jornada e por contar ao jogador a história de vida e os eventos que levaram a personagem até onde ela está, além de explorar bastante a os contos e lendas da mitologia nórdica.

E no meio deste turbilhão, é claro, está Senua, que é magistralmente interpretada por Melina Jurgens – que, curiosamente, começou a trabalhar na desenvolvedora Ninja Theory como produtora de vídeos.

O trabalho do estúdio com a protagonista do game é um dos grandes méritos de Hellblade. É possível ver o cuidado artesanal que o time teve com a modelagem da personagem principal, que tem uma camada extra de realismo por conta da tecnologia de captura facial usada pelo time. A tecnologia confere peso aos vários momentos de exposição em que o quadro se aproxima do rosto de Senua, apostando em suas expressões para transmitir dramaticidade ao jogador.

Entrar em detalhes sobre a história, no entanto, seria estragar grande parte de Hellblade para quem ainda não experimentou o título: o passado de Senua é intimamente ligado ao presente da personagem e, junto às manifestações de sua doença, moldam a forma como ela enxerga o mundo e seu propósito nele. Ou seja: se você tem planos de jogar Hellblade, a recomendação é pular de cabeça com o mínimo possível de spoilers – absorva a história no tempo e da forma que os desenvolvedores a desenharam que você vai tirar o melhor desse título.

Aliás, uma última dica sobre a história: confie na narrativa. Hellblade demora um tempo para decolar de fato, então não fique bodeado com o início relativamente lento. A jornada pega fogo (literalmente e metaforicamente) a partir de seu segundo ato. Daí em diante, o ideal é embarcar na jornada em uma única sentada.

Uma dica sobre a história: confie na narrativa

Deixando a narrativa e o transtorno psiquiátrico de lado, Hellblade traz uma dose equilibrada de combate e quebra-cabeças espalhados por sua aventura linear que são os responsáveis por realmente fazerem do jogo… Bem, um jogo.

Em termos de combate, é difícil não fazer um paralelo com o que é oferecido em Hellblade e o que é visto em jogos da série Dark Souls – ainda que eles sejam beeem mais fáceis de se enfrentar por aqui.

Golpear, golpear, bloquear o ataque do inimigo, contra atacar, esquivar para um lado, esquivar para o outro, golpear, ativar o “especial” – que deixa todos os inimigos em câmera lenta – e repetir: em Hellblade, o combate é uma espécie de dança divertida, mas que se torna repetitiva assim que o jogador aprende todos os passos disponíveis. Mesmo contra os inimigos mais poderosos do jogo, uma vez que você tiver dominado todos os elementos, será difícil ser surpreendido.

Isso só não se torna um problema sério para o jogo porque sua dependência no combate não é total: apesar das criaturas sombrias manifestas pela mente de Senua serem importantes para a história, o jogador de Hellblade também enfrenta uma série de quebra-cabeças que são, em grande parte, resultado da psicose da personagem.

É preciso ativar runas para abrir portas, “reconstruir” edifícios destruídos, saltar entre diferentes planos de existência e até navegar por um ambiente completamente escuro por mais de 15 minutos para se seguir viagem – desafios que são diversos o bastante para não se tornarem cansativos e que prendem a atenção por terem relação direta com a progressão da narrativa.

Um terceiro elemento da jogabilidade que colabora para tornar o game mais interessante é sua dinâmica de morte permanente. Senua traz no braço direito uma “podridão” que avança em direção do rosto cada vez que a personagem morre. Após um certo número de mortes  – que, por sorte, não atingimos na nossa primeira sessão de jogo – a jornada recomeça do zero.

Hellblade

A frustração de se recomeçar a aventura logo antes de entrar nos portões de Helheim deve ser grande e pode desestimular alguns jogadores, é verdade, mas coloca uma dose extra de pimenta no jogo e serve como um lembrete constante para que você para e repense sua estratégia após cada morte da personagem – tomando o cuidado para não cometer o mesmo erro múltiplas vezes.

Hellblade: Senua’s Sacrifice é resultado de mais de três anos de desenvolvimento e é um projeto bastante ambicioso para um estúdio independente como o Ninja Theory. Ainda assim, é possível ver o cuidado com que o time levou seu desenvolvimento, que vai da atenção aos detalhes no design de Senua à sensibilidade que a equipe teve para retratar um transtorno psiquiátrico que afeta milhares de pessoas.

Dito isso, o resultado final não é um jogo para todo mundo. Se você busca gráficos de última geração, combate e inimigos diversificados, múltiplas histórias e missões e um fator replay que tende ao infinito, é melhor colocar sua verba em outro lugar.

Para quem está interessado em uma história linear, mas envolvente e bem contada, salteada por uma jogabilidade que traz alguma ação e desafios para massagear o cérebro, Hellblade é uma aposta acertada e uma jornada que traz aquela mesma satisfação de se terminar um bom filme ou um bom livro assim que chegamos no final.

Hellblade está disponível para PlayStation 4 e PC (Steam, GOG.com). O jogo foi testado em um PC. Clique no nome das plataformas para conferir o preço nas versões digitais

Nota do crítico