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Você entra numa estação de metrô, equipado apenas com uma jaqueta e uma máscara de galinha, por alguma razão apelidada de Richard. Lá dentro, uma infestação de guardas te aguardam. Após matar o primeiro, você pega o bastão de baseball deixado para trás pelo finado, e continua a progredir, amassando cabeças e fazendo chover sangue por toda parte. Até que alguém te mata. Naturalmente, você tenta de novo. Morre novamente, e mais uma vez, e outra vez, e mais dezenas de vezes, até finalmente terminar a fase.

E então você se sente como um deus.

Hotline Miami, desenvolvido pela Dennaton Games, foi lançado no fim de 2012 para PC, e no ano seguinte chegou ao PlayStation 3, Vita e Mac. O jogo se passa no fim da década de 80, tem uma trilha sonora digna da época e uma belíssima pixel art. Seu gameplay é preciso, recompensa boas estratégias e acredite ou não, a história por trás de tudo é muito interessante.

Entretanto, por mais que todos esses aspectos sejam bons, o que torna Hotline Miami tão popular é outra coisa. Pergunte a qualquer fã do jogo, ele é absurdamente viciante. Conheço pessoas que passaram mais tempo jogando Hotline no Vita em filas da Brasil Game Show, do que testando jogos novos. Não é incomum ver pessoas o apelidando de “crack” ou “cocaína”. Posso confirmar isso. Minha primeira experiência com este jogo foi no fim de 2013, quando estava de férias numa praia aguardando a virada do ano. Troquei o mar e areia pelos prédios cheios de perigo de Miami, em 1989. Eu não conseguia parar, não importava o quanto eu morresse, a energia para continuar era renovada toda vez que uma fase era concluída.

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Mas por que? O que torna esse indie tão viciante? Há diversas razões, mas uma delas foge dos assuntos que normalmente englobam discussões sobre games. A “excitation-transfer theory”, ou teoria de transferência de excitação diz que o sentimento resultante de um estímulo vai aumentar a resposta emocional de um estímulo futuro.

Ou seja, um sentimento forte vai deixar o sentimento seguinte ainda mais forte. É por isso que sentimos grande alívio após o medo quando a protagonista de um filme de terror escapa do alienígena que a persegue. Ou porque ficamos felizes quando o herói derrota um vilão que nos irritou. Em Hotline Miami, a animação de terminar uma fase depois da grande frustração causada por inúmeras mortes é uma droga para o seu cérebro. Você quer mais, e é por isso que clica em “continuar”.

É aí que a Dennaton acertou em cheio. Eles dosaram a dificuldade e o tamanho de Hotline Miami perfeitamente. O segredo está no design de level, agumas fases dão vontade de quebrar o controle, mas elas não são longas. Morrer leva alguns segundos, terminá-las pode ser feito em poucos minutos. Nós somos incentivados a continuar porque a linha de chegada está sempre a nosso alcançe, e nós a perseguimos independente do quão turbulento seja o caminho.

Depois de muito sangue e morte, quando a tempestade de violência acaba e a missão acaba. Nosso sentimento sempre é o mesmo. "Mais".

*Na seção Programa de Indie, os redatores do Omelete indicam jogos criados por produtoras independentes. Deixe a sua opinião e compartilhe outros games nos comentários!