Há alguns anos, na eterna disputa entre os jogos de futebol, o grito de “o campeão voltou” está entalado na garganta dos defensores de Pro Evolution Soccer. Que o jogo da Konami está em franca evolução é inegável: a entrada em campo da Fox Engine, o motor de Metal Gear Solid V, fez o título superar a má fase da tenebrosa era PS3/Xbox 360. Mas, a pergunta ainda permanece: será que o campeão voltou mesmo com PES 2018?

A resposta, como sempre, é mais complicada do que parece. Dentro de campo, PES 2018 está “voando”, e está tão divertido como era em seu auge. Como o atacante forte e de boa visão que recua para o meio-campo nos anos finais como profissional, o jogo reduziu a correria e adotou um ritmo mais cadenciado. De certa forma, o jogo vai na direção oposta da agilidade que marcou a edição 2017.

Com a desaceleração geral do ritmo de jogo, também vieram os espaços em campo. PES 2018 é, provavelmente, um dos jogos da franquia que dá mais abertura para o jogador realizar ações, especialmente em posse da bola. Nos últimos anos, a inteligência artificial sempre colocava quem defende em uma posição boa o suficiente para dar o bote e, assim, sufocar qualquer investida já no meio de campo - algo que favorece quem prefere um estilo de jogo mais agressivo e/ou tem maior domínio de dribles e controles.

Na versão 2018, os poucos metros de distância são o suficiente para que você consiga parar e pensar. Trocar passes pacientemente no campo de defesa do adversário em busca de uma abertura, como fazem os times regidos pelo tiki-taka de Pep Guardiola, por exemplo, eram algo que eu raramente fazia em edições anteriores, e agora é certamente mais fácil.

A precisão dos passes e lançamentos não é a mesma quando a bola adentra a grande área, infelizmente. PES 2018 parece deixar os jogadores à própria sorte na hora de finalizar, com critérios aparentemente inexplicáveis para decidir se uma bola entra ou não. Não foram poucas as vezes em que mandei bolas na trave ou muito próximas ao gol, mesmo bem posicionado e muitas vezes utilizando o modificador de chute colocado. A bola não entrar é uma das coisas do futebol, mas a mística parece ter sido incorporada como mecânica.

Apesar dos ajustes finos e da constante evolução que claramente é mérito de um bom trabalho da equipe de desenvolvimento, o jogo ainda mantém várias de suas idiossincrasias que parecem acompanhá-lo desde os áureos tempos dos anos 2000. As bolas aéreas, seja em escanteios ou com laterais/pontas avançando até a linha de fundo, continuam sendo armas mortais, especialmente quando o goleiro dá aquelas espalmadas generosas ou inexplicavelmente defende com o pé quando poderia fazê-lo com as mãos.

A bola não entrar é uma das coisas do futebol, mas a mística parece ter sido incorporada como mecânica

As divididas também seguem o mesmo padrão bizarro da época do PS3/360, com a bola muito mais propensa a parar na direção de um jogador no campo de defesa (ou para fora, se a disputa acontecer a pelo menos cinco metros da linha lateral).

A questão do licenciamento

Falar dos problemas de licenciamento de PES é chover no molhado, já que este é um problema que assola a franquia da Konami desde praticamente toda a sua existência. E, ainda que a empresa deixe a edição de times genéricos aberta (deixando o trabalho sujo para a comunidade, com seus option files e importações via dispositivos USB), nunca deixa se ser broxante quando Lionel Messi é o craque do Barcelona, Neymar brilha pelo PSG, e Cristiano Ronaldo comanda o poderoso MD White.

PES 2018

Este é o Real Madrid do PES 2018

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Claro, a questão aqui não tem nada a ver com tecnologia, e sim com dinheiro. Frente ao domínio da concorrência sobre os direitos de algumas das principais ligas, a Konami investe com força nos licenciamentos diretos com os clubes, colocando-os em um seleto rol de “equipes parceiras”. Em média, o estúdio japonês fecha com pelo menos um clube das principais ligas: Barcelona (La Liga), Liverpool (Premier League), Borussia Dortmund (Bundesliga) e Milan (Serie A) estão entre eles.

Somados aos direitos de alguns campeonatos importantes, como a Champions League, PES 2018 vai enfrentando a questão como pode, mas, pensando na marca, a posição é precária - vide a sinuca de bico na qual a companhia japonesa se viu com a transferência de Neymar do Barça para o clube de Paris.

Curiosamente, uma das poucas regiões em que PES consegue exercer domínio quase total é o Brasil, já que o jogo tem a licença oficial do Brasileirão, dos 20 clubes da Série A e ainda conta com a exclusividade de Flamengo, Corinthians e Vasco - clubes que figuram entre os mais populares do país. Ainda assim, todo o aporte financeiro não salva o jogo de ter escalações genéricas, já que não há orgãos que façam a negociação coletiva dos direitos de imagem dos jogadores.

Frente a tudo isso, o Brasileirão de PES 2018 nem sempre é uma recriação fiel do original, o que também não é auxiliado pelo sistema incipiente de narração do jogo. Milton Leite é um dos melhores narradores esportivos do país, mas é mal aproveitado por um esquema que repete à exaustão linhas de diálogo e não tem tanto cuidado com gravações específicas para cada situação. Com o passar dos anos e o acúmulo de horas gravadas de uma versão para outra - afinal, este é apenas o segundo ano da dupla Leite e Mauro Beting -, o problema pode ser sanado.

PES 2018

Clube parceiro de PES, Flamengo tem uniformes e rostos de jogadores fiéis à realidade

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Mas, tirando todos os problemas extra campo, PES 2018 continua divertido de se jogar, e mais receptivo do que nunca. A evolução da franquia é plena e, pelo menos em campo, o jogo está bem preparado para a disputa.

Pro Evolution Soccer 2018 está disponível para PlayStation 4, Xbox One, PC, PlayStation 3 e Xbox 360. O jogo foi testado em um PlayStation 4 normal.

Nota do crítico