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Em 20 de setembro de 1996, a franquia de jogos japoneses Shin Megami Tensei recebeu mais um de seus diversos derivados. Shin Megami Tensei: Persona chegou ao mercado de games e começou o que se tornaria uma das séries mais importantes de JRPGs no mundo moderno. Agora, 20 anos depois, Persona deixou de ser um spinoff para virar um fenômeno muito maior do que a própria marca SMT no Japão, englobando animes, filmes, mercadoria e jogos. Nos últimos anos, suas imagens e músicas vibrantes, e suas histórias tocantes e bizarras começaram a infectar o ocidente, globalizando a saga, um dos principais pilares da Atlus

Persona é uma série de JRPGs que foca em personagens jovens, em sua maioria estudantes, e traz aspectos clássicos de jogos do tipo, como Final Fantasy ou Dragon Quest, para um ambiente moderno. Sim, você tem espadas, criaturas monstruosas, grandes heróis e tudo que você espera deste gênero, mas aqui as batalhas acontecem ao som de hip-hop, com pessoas em uniformes escolares, usando fones de ouvido e outros acessórios, e não em armaduras de cavaleiro.

Em todos eles, os protagonistas podem invocar Personas, representações físicas do seu eu interior, para combater forças malignas como demônios ou as Shadows, versões deturpadas daquilo que perturba a personalidade humana. O estilo da franquia é um dos seus principais trunfos. Para alguém que já gastou centenas de horas em títulos clássicos japoneses, o choque ao entrar neste mundopode ser o primeiro passo para se apaixonar por Persona

Persona 3 foi a grande virada - foi que transformou SMT em um nome realmente mainstream entre os RPG japoneses no mundo todo. Isso se deve a uma série de decisões muito sagazes por parte da Atlus: o jogo grita design, principalmente nos personagens e interface,” conta Fernando Mucioli, tradutor de mangás para a Panini e JBC, e de animes no Crunchyroll, onde já é possível assistir o anime que antecede Persona 5, mais novo lançamento da Atlus.

A trilha sonora vai junto, com uma pegada mais urbana e pop em contraste ao industrial dos jogos anteriores. As mecânicas ficaram mais simples (mas não necessariamente piores) e a história passou a tratar de um problema bem específico e próximo à juventude (suicídio e depressão). Isso tudo conversou muito com o público, que talvez estivesse saturado entre as ofertas de fantasia medieval e futurismo. E essa tendência se manteve em Persona 4," ele afirmou.

Essa personalidade gritante, no melhor sentido possível, é um dos fatores chaves para diferenciar Persona de outros JRPGs. Como consequência, a série atrai pessoas que jamais tocariam, por exemplo, em Wild Arms ou Xenogears. É isso que explica Reginald Perodin, administrador e editor-chefe do Persona Central, um dos maiores sites de fãs da franquia no mundo. “Em muitas maneiras, Persona não é necessariamente tão fundamentalmente diferente de outros jogos japoneses. Até excluindo a série Shin Megami Tensei nos quais os jogos são baseados, Persona compartilha muitos elementos com outros jogos e gêneros como visual novels ou o dungeon crawler padrão. A diferença é que pessoas como Shoji Meguro (compositor), Katsura Hashino (diretor) e Shigenori Soejima (artista) são extremamente talentosos, e isso é refletido em seu trabalho.”

Os nomes mencionados acima são a trindade que rege a direção criativa da franquia. Eles se tornaram figuras extremamente respeitadas em seus campos, especialmente no Japão, e são, atualmente, os principais responsáveis pela identidade da série. “A personalidade nos jogos Persona - dos personagens, do diálogo, da música, e até da interface - conecta com os jogadores, e a dedicação que a equipe tem para criar jogos memoráveis é totalmente representada em seu trabalho,” adicionou Perodin.

Estilo com conteúdo

Felizmente, os desenvolvedores do P Studio vão além das aparências. Há muito para explorar por baixo das cores fortes e músicas animadas. Persona conta histórias sobre morte e vida, mentiras e verdade, ganância, e, acima de tudo, amizade. Isso acontece, em grande parte, através dos Social Links, um sistema no qual, através de decisões de gameplay, você se torna mais próximo de uma pessoa.

Em outras palavras, através do ato de jogar e das escolhas que você faz enquanto joga - com quem você vai sair hoje, qual a resposta que você vai dar para seu amigo aqui, etc - você navega a história de duas ou mais pessoas se tornando amigas, se conhecendo mais e criando um laço inquebrável. Ao unir a narrativa e as mecânicas, Hashino, Meguro, Soejima e os outros desenvolvedores não dizem que seu personagem tem que tornar amigo de alguém, eles permitem que você escolha e cultive seus relacionamentos, assim como a vida real.

E estes personagens memoráveis que se encontram nas histórias de todos os jogos da franquia são uma das principais razões pelas quais os fãs de Persona entram nessa montanha-russa emocional. É difícil tratá-los apenas como criações fictícias quando suas personalidades são tão carismáticas, seus sentimentos tão compreensíveis, e seu crescimento e mudança ao longo da história tão profundo. “A série é bem real nas suas problemáticas e te faz passar por situações que talvez você já tenha passado na vida real. Ao fim do jogo, você tem a sensação de fazer parte de uma família, pois ficou muito próximo da história de todos os personagens,” explica a publicitária Tamires Posenato, fã assumida da série.

A vida de colegial é especialmente cruel no Japão, mas a adolescência é um período complicado não importa em que parte do mundo você esteja. Ainda mais nos anos recentes, em que praticamente todo mundo sofre com algum tipo de ansiedade. Ao mesmo tempo em que o jogo é catártico nesse sentido - você pode combater e destruir aquilo que te aflige no dia a dia - o sistema de Social Links é como se fosse um manual de como lidar com diferentes tipos de relações interpessoais,” concorda Mucioli. Esse é um sentimento que ecoa entre todos os fãs da franquia. 

Você dificilmente se sente controlando uma inteligência artificial. Por mais que seja exatamente isso que está acontecendo, os desenvolvedores fazem um trabalho brilhante em todos os aspectos - na narrativa, mecânicas ou apresentação - para eliminar todas as barreiras entre você e o grupo que está ali. Posenato ressalta isso ao falar sobre o sucesso de Persona 4, até agora o título mais popular da série. Acredito que Persona 4 viralizou pelo seu tema e ambientação. Ele é um pouco mais próximo de um slice of life do colégio com tarefas ordinárias. Os temas também são bem palpáveis, seja a aceitação de quem você é, ou defender e proteger seus amigos. Cada personagem tem um pouco de todos nós.”

Persona 5 e o futuro

No último dia 15, Persona 5 foi lançado no Japão. Ele é o primeiro lançamento novo de um jogo numerado na franquia desde de 2008 (de lá pra cá, a série viveu de derivados como Persona Q no 3DS, e relançamentos como Persona 4 Golden no Vita, títulos que também ajudaram para popularizar a marca no ocidente). A expectativa de muitos é que ele seja o Final Fantasy VII da série, o momento em que ela vai explodir além do nicho que ocupa agora. O jogo tem tudo para conseguir isso. Fãs de Persona são ótimos em expressar seu amor e animação para com os jogos na internet e com os amigos, e ele será o primeiro título da saga principal a estar disponível, desde o dia 1, no PlayStation 3 e PlayStation 4.

A série vem numa crescente desde o lançamento de Persona 3 e provavelmente se mantém no seu auge,” aponta Mucioli, que já está brincando com o aguardado P5. “A minha grande ressalva com relação a P3 e P4 sempre foi o design dos calabouços. SMT sempre teve dungeons satanicamente maravilhosos, mas o esquema roguelike desses jogos nunca me agradou - achava muito preguiçosos. E eu também queria que mexessem no sistema de Social Links, que são essencialmente iguais entre os dois jogos. Eu já joguei quase 10h de Persona 5 e acho que alguns dos meus desejos foram atendidos,” ele nos contou.  

Tamires, que ainda não teve a oportunidade de jogar a novidade, se mantém muito positiva. “Tudo que eu vi até agora me deixa empolgada sobre o jogo, o fato de ter negociação com os demônios (olá Persona 2), a brincadeira de tentar adivinhar as arcanas e explorar os social links, a temática e a trilha sonora. Os próprios personagens me parecem tão incríveis e tão diversos, além do saudosismo de ver um pouco de outras séries nessa,” conta a publicitária. 

Já Perodin se mostra curioso para ver se tudo isso vai se traduzir para o esperado sucesso que Persona 5 pode alcançar. “Diversos derivados, colaborações e adaptações serviram para, lentamente, aumentar o número de fãs nos oito anos desde o lançamento de Persona 4, e com isso a expectativa para o próximo jogo principal de Persona atingiu, naturalmente, um ponto máximo,” nos conta o jornalista. “Resta ver se o mesmo tipo de hype vai acertar o ocidente para Persona 5. Jogos como Catherine e Persona 4 Golden também deixaram as pessoas mais cientes dos jogos do P Studio, mas há poucos seguidores fora dos círculos de entusiastas. Eu espero que Persona 5 possa ter um grande impacto nos mercados ocidentais em 2017.”

Em Persona 5, nós vamos controlar os membros de um grupo conhecido como “Ladrões Fantasmas de Corações.” Ao contrário dos protagonistas dos últimos dois jogos, eles não são puramente heróicos. Através de uma habilidade que permite com que eles entrem nos corações das pessoas, eles têm acesso a aspectos importantes de suas personalidades que, se removidos, podem alterar o curso de vida do alvo em questão. Com base nisso, eles aceitam pedidos de pessoas que estão em perigo, mas também executam roubos para facilitar suas vidas na escola e coisas do tipo.

O lançamento de Persona 5 no ocidente está marcado para o dia 14 de fevereiro de 2017, no PS3 e PS4. Nesta data, não será incomum ver fãs da série pedindo um dia de folga.

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