História do mundo em 6 copos
Tom Standage
(Ed. Jorge Zahar)
Persépolis
Marjane Satrapi (Cia das Letras)
The Buenos Aires affair
Manuel Puig
(José Olympio Editora)

O cenário lembra a Branca de Neve no bosque, com flores desabrochando, passarinhos cantando... É o fim do longo inverno que manteve a Bookends longe do Omelete. Os motivos da ausência, na verdade, são vários. Tantos que roubariam excessivas linhas dessa coluna. Linhas que, depois das dilatadas férias, merecem destino melhor. Ideal seria preenchê-las com observações sobre todos os livros consumidos - longa ou demoradamente - durante tal desmedido recesso. Mas há sempre limites, na internet e na disposição do leitor (especialmente no caso dos menos saudosos). Assim sendo, o menu aqui foi reduzido para três pratos literários. A seleção pode parecer parca. Entretanto, cuidadosamente preparada, engloba três iguarias que bem representam a natureza do homem: guerra, amor (e sexo) e bebida.

Para começar, uma bebidinha para abrir o apetite. Ela, aliás, pode chegar à mesa ainda fumegante ou geladíssima, recém-saída do bule quentinho ou preservada há décadas em tonéis de cedro. Tudo depende do capítulo em que se abre o História do Mundo em 6 copos, de Tom Standage. Mas o que esperar de um livro escrito pelo editor de tecnologia da revista The Economist? Um texto longo, cansativo, sisudo? Nada disso. Essas características que muitas vezes se atribuem à revista não passam de lendas. O que prevalece no livro são alguns dos trunfos da Economist, e certamente de seus editores: abordagem inusitada, extensa pesquisa, fontes múltiplas, texto minucioso e incrivelmente embasado. Um verdadeiro tratado sobre os líquidos vitais, que embalam (para o bem ou para o mal) homens e mulheres do planeta todo, desde a pré-História. Ou você pensou que o homem das cavernas levava aquela árdua rotina a seco? ;-)

Li as 226 páginas do livro num gole só. Mas caso resolva reler História do Mundo em 6 copos, o faria aos pouquinhos, bem acompanhada por uma bebida. Para começar, pegaria aquela latinha quase trincando, lá do fundo da geladeira, para escoltar o primeiro capítulo: A cerveja na Mesopotâmia e no Egito. E é logo ali que você acaba descobrindo o porquê de bebidas estarem freqüentemente associadas a qualquer tipo de socialização, seja um bate-papo com os amigos, uma festa, um drink com o namorado... O autor afirma que na Mesopotâmia, em 3.000 a.C., canudos continuavam a ser usados mesmo quando não eram mais necessários: A explicação mais provável para essa preferência é que, ao contrário da comida, as bebidas podem ser partilhadas genuinamente. Quando várias pessoas bebem cerveja do mesmo recipiente, estão consumindo o mesmo líquido; ao contário, quando cortam um pedaço de carne, algumas partes são normalmente consideradas mais desejáveis do que outras.

Assim como os seguintes, o primeiro capítulo faz uma completa linha do tempo da cerveja. Ela era a principal bebida das primeiras civilizações, já que era derivada do trigo e da cevada, as primeiras plantas a serem cultivadas. Tom explica que ela não foi inventada, mas sim, descoberta. Isso porque, há mais de 6 mil anos, o homem descobriu que cereais podiam ser armazenados, diferentemente da maioria dos outros alimentos. Só que com armazéns precários, eles eram freqüentemente alvos de chuvas. Molhados, os grãos liberavam uma curiosa substância doce. Esse malte foi extremamente útil e bem-vindo, já que acúcar e afins ainda não haviam sido descobertos. Pouco tempo depois, nossos antepassados perceberam ainda que esse mingau doce - se deixado parado por alguns dias - tornava-se ligeiramente efervescente e agradavelmente embriagante. Bingo! Ainda hoje muitos agradecem ao homem que constuía armazéns cheios de infiltrações.

Depois, para o segundo capítulo (O Vinho na Grécia e na Roma), escolheria a taça mais pomposa do armário. Foi na idade dourada da antiga Grécia (séculos IV e V) que o vinho começou a ser considerado uma bebida mais nobre, das classes mais finas, superiores, intelectuais. Os gregos faziam reuniões regadas a vinho para debater filosofia, retórica, poesia. Se Platão acreditava que o vinho fornecia um bom método para se testar o caráter de um homem, quem somos nós para contestar?

Para o terceiro capítulo, separaria um ou dois cubinhos de gelo (não mais que isso, por favor) em um copo baixo e largo. Abram as páginas para o whisky e acompanhe o capítulo Destilados no período colonial. Por volta do ano mil, acadêmicos árabes em Córdoba refinaram a técnica da destilação. O primeiro líquido a passar por este processo foi o vinho, que, como podia ser incendiado, era chamado de água ardente. Depois, quando descobriram que ele tinha propriedades terapêuticas, passou a ser chamado de água da vida. Mas seu uso médico revelou-se desastroso e, veja só, as pessoas começaram a bebê-lo para se embriagar. Os destilados, porém também têm seu lado menos cômico, já que foram importantíssimos no comércio escravocrata, a começar pela aguardente e do rum derivados da cana.

Chega de revelar demais o conteúdo do livro. Basta listar os copos ideais para se acompanhar os três últimos capítulos: uma simples xicarazinha para O café na idade da razão; outra mais incrementada para O chá e o Império Britânico; e, por fim, nada de copos. Coca-Cola se bebe direto da garrafa (ou latinha), e nada de gelo e limão. Ainda mais ao se tomar conhecimento do consumismo e dos mistéricos que cercam o mais famoso xarope do mundo em Coca-Cola e a ascensão da América. No final - meio embriagado pelo álcool, meio ligadão pela cafeína - você fica sabendo qual a bebida do futuro, agora que já sabe quais foram as seis que fizeram o passado. E ainda é brindado pelo autor com dicas de como provar as bebidas de antigamente, caso das espessas e opacas cervejas da região saariana na África, a mais próxima da cerveja neolítica.

Irã com lágrimas e sorrisos no canto da boca

O prato principal, na verdade, já está um tanto quanto frio. Afinal, saiu do forno (ou da gráfica) faz um certo tempo. Mas alguns pratos, de tão bem feitos, são saboros mesmo frios, até gelados. Caso de Persépolis, autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi.

Dividida em quatro volumes, a série traz a (intrincada) história contemporânea do Irã vista pelo prisma da uma menina que, com apenas nove anos, presenciou a chamada Revolução Islâmica. Mais que isso: uma menina criada em uma escola laica francesa e em uma família moderna, politizada, de esquerda - o que nos permite uma visão mais ampla e consciente do que estava aconteceu na antiga Pérsia.

Logo na primeira página de Persépolis 1, damos de cara com meninas, no pátio da escola, usando o véu das mais inusitadas maneiras: como corda para pular, como rédea para brincar de cavalinho, como capuz para a fantasia de monstro das trevas... e com a frase A gente não gostava muito de usar o véu, principalmente porque não entendia o motivo. É a autora nos dizendo que essa história, apesar de ser uma das mais tristes e absurdas, vem acompanhada de boas doses de humor e sarcasmo.

É logo na primeira página também que se percebe que o desenho simples de Marjane é carregado de detalhes sutis, que revelam uma realidade por vezes tão distante da nossa. Aliás, os olhos de criança e o formato de HQ trazem também outra vantagem: mostram cenas que livros de História taxariam de irrelevantes, como o retrato de duas mulheres depois que o véu passou a ser obrigatório. Como num jogo de sete erros, Marjane mostra que simples mechas de cabelo saindo para fora daquele polêmico pedaço de tecido era um sinal claro de rebeldia.

Rebeldia que em uma criança se transforma em pura teimosia. Porém, no dia-a-dia iraniano, ela se manifestava não em birras sobre a hora de dormir ou o brinquedo novo, mas sim sobre querer e não poder participar de manifestações contra o Xá. Outra conseqüência em ter crianças vivendo em plena guerra é que elas amadurecem numa velocidade desmedida. Aos dez anos, nossa protagonista descobre, por exemplo, que um ferro de passar pode servir de instrumento de tortura. E tem de lidar com sentimentos complexos que, num mundo ideal, não deveriam surgir na infância. Quando sua família abriga amigos que perderam tudo na guerra, percebe que não só suas casas foram destruídas. A menina experimenta então a vergonha (de seu próprio país) e a compaixão (pelos que perderam tudo).

E é durante os questionamentos que fazia a si mesma quando criança que Marjane risca alguns quadrinhos inesquecíveis, como o que a mostra passando horas na frente do espelho, repetindo que era preciso perdoar. Ou quando aprende que despedidas são parecidas com a morte. Duras lições como essas eram difícies de entrar na cabeça de alguém que presenciou um tirano (Xá Rezah) ser derrubado por manifestação do povo (das quais seus pais participavam) e, depois de um brevíssimo momento de felicidade, ser substituído por radicais religiosos (liderados pelo aiatolá Khomeini). Alguém que em vez de brincar na rua ou paquerar colegas na escola aprendeu a passar fita crepe na janela pra que o vidro não se estilhaçasse todo com os bombardeios, que viu tios e pais de amigos serem executados, que quase foi presa por usar um tênis Nike e uma jaqueta jeans. Enfim, uma menina que conviveu com uma carnificina diária produzida por um dos mais brutais regimes xiitas.

Assim, conflitos povoavam a mente da pequena Marjane a todo o momento, principalmente os religiosos. Em algumas situações, tudo o que ela queria era o colo de Deus. Em outras (como quando disseram que seu tio teve de viajar de repente, mas ela já sabia o que isso significava) gritava pra Deus: cala a boca! Sai da minha vida! Nunca mais quero te ver!. Muito usado pela república islâmica para justificar tanta guerra, o conceito de mártir também se embaralhava na cabeça da menina. Seu pai, por nunca ter lutado, nem ter sido preso ou torturado, não era então um herói?

Mas não pense que os quadrinhos tratam apenas dos complicados conflitos da mente da autora. Eles retratam também os pontos em que sua infância e, principalmente, adolescência se assemelham à de outras crianças e teenagers mundo afora. Basta ler passagens assim pra se simpatizar com a perspicácia e ironia da protagonista. E se encantar também com o esforço dos pais, que faziam de tudo para que ela tivesse uma vida o mais próximo do normal possível. Fica fácil se identificar com Marjane quando ela vai à sua primeira festinha. Empolgadérrima, ele esquece temporariamente da guerra, e conta como sua mãe foi legal por deixá-la ir e ainda fazer um colar cheio de pregos no melhor estilo punk, a maior moda da época. No meio do caminho, você se pega (rindo e) pensando o que faria se, quando adolescente, tivesse de encomendar da Turquia jeans, chocolate, bottom do Michael Jackson e um desejado pôster do Iron Maiden.

Tudo isso (dos primórdios da Revolução de 1979 até o auge do recrudescimento do regime, no início dos anos 80s) se passa em apenas metade da série. Os outros dois livros deverão ser lançados, segundo a Cia. das Letras, a partir de março - quase seis meses depois dos primeiros chegarem às livrarias. Tamanha demora intriga quem não é do meio editorial, além de ser uma incrível falta de respeito com os leitores que foram facilmente conquistados pela inteligência de Marjane Satrapi. No meu caso, esperar Persépolis 3 por mais um longuíssimo mês (e saber que esse prazo pode ser prorrogado mais uma vez, como já aconteceu antes) é quase uma tortura.

Um doce latino carregado de amargura

A sobremesa é latina (quem se lembra da promessa de a coluna sempre trazer um livro escritos por nossos vizinhos?). E, por exclusão, percebe-se que é ela a obra que traz amor, sexo (ou, talvez melhor dizendo, dramas com a sexualidade) e obsessão. O nome do doce é The Buenos Aires Affair, assim mesmo, em inglês - embora o livro seja em português. Seu chef? Manuel Puig, polêmico escritor argentino que chocou seus conterrâneos ao escancarar a hipocrisia da sociedade portenha. Puig, autor do célebre O beijo da mulher aranha, construiu seus personagens sem piedade. Ambientados nos anos 70, os dois protagonistas são verdadeiras mentes mutiladas, essencialmente devido ao meio em que cresceram. Mesmo vindo de famílias com históricos bem diferentes, ambos estiveram sempre cercados de pessoas mergulhadas no jogo de aparências.

De um lado está Gladys Hebe DOnofrio, uma escultora de 35 anos cuja obra mais famosa até então datava dos tempos da faculdade. Criada por uma mãe alienada (que parece ter passado à filha todas as suas frustrações), ela vive à procura de um amor perfeito, seja em Nova York - onde mora por alguns anos - ou na sua natal Argentina. Do outro lado está Leo Druscovich, um bem sucedido crítico de arte, mas nem por isso menos problemático. Educado pelas irmãs mais velhas, já que a mãe morrera e o pai morava longe, ele desde cedo percebe que não se encaixa naquela sociedade e, mesmo depois de morar por um bom tempo no exterior (como Gladys), carrega nas costas seu passado permeado de culpa. Dos dois lados, porém, reinam sentimentos comuns, a rejeição, a solidão - o pai de Leo, assim como os amores de Gladys, os abandonaram.

Os dois se encontram no litoral argentino, em Playa Blanca. Entretanto, o que os une, vejam só, é São Paulo. Logo depois de conhecer o trabalho de Gladys (obras produzidas com objetos que a maré devolvia), Leo a convida para ser a representante do país na Bienal de Arte que São Paulo sediará em alguns meses. O relacionamento entre os dois beira a insanidade. Ela, viciada em remédios. Ele, em violência. A conduta desajustada de ambos vai corrompendo a realidade e revela um homem e uma mulher atormentados pelo sexo. Imersa em seus sonhos pueris, Gladys não consegue se desvencilhar de suas fantasias sexuais, enquanto Leo se martiriza por sua pífia performance na cama.

Passado e presente vão se alternando nas história de Leo e Gladys, contadas num sem-número de tipos de narrativas. Puig brilhantemente alterna discursos diretos e indiretos com descrições secas, divagações detalhadas, estruturas de textos inesperadas - caso das anotações de um depoimento feitas por um policial. Uma mistura que, à primeira vista, parece servir apenas para embaralhar ainda mais a já confusa mente do leitor. Mas, no decorrer, do livro vai se percebendo (aos poucos, é verdade) que cada um dos estilos escolhidos pelo autor faz todo o sentido. Do mesmo modo que, aos poucos, vai se revelando a lógica por trás das transcrições, em todo começo de capítulo, de diálogos de clássicos do cinema das décadas de 30, 40 e 50. Trechos como Marlene Dietrich, irônica e amarga, em o Expresso de Xangai, e Rita Hayworth, deslumbrante e pertubada, em Gilda.

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A refeição de hoje fica por aqui. E com a promessa de que este grande intervalo não se repetirá.

Até a próxima!

Leia mais Bookends*

* Bookends = objeto usado, geralmente em pares, para manter uma fila de livros em pé, tudo organizadinho na estante :o)