O Poderoso Chefão
Electronic Arts
4,5 ovos

A Electronic Arts tratou com reverência o desafio de transformar em videogame O poderoso chefão (The Godfather, 1972), um marco na cultura do século 20 e um dos melhores filmes de todos os tempos. A empresa empregou todos os seus recursos no desenvolvimento e adaptação da história de Mario Puzo, dirigida no cinema por Francis Ford Coppola, e o resultado é fantástico.

Não só a empresa conseguiu criar uma narrativa que passeia pelo universo do filme, revelando os bastidores do baixo escalão da família Corleone, como também entrou com sucesso no gênero dos jogos de mundo aberto, do qual o famoso Grand Theft Auto é o maior representante.

Diferente do game da Rockstar, porém, O poderoso chefão transborda de charme. A começar pela escalação do elenco. Marlon Brando (1924-2004 - Vito Corleone), James Caan (Santino Sonny Corleone), Robert Duvall (Tom Hagen) e Abe Vigoda (Salvatore Tessio) dublaram seus personagens na superprodução, o que dá enorme satisfação a qualquer fã da saga. Não me lembro de ter obtido prazer maior num game que o momento em que meu personagem testemunhou, da janelinha da porta, a belíssima cena na qual Michael Corleone conversa com o pai na cama de hospital. Defender o Dom tornou-se não uma necessidade do jogo - para passar de fase - mas uma obrigação moral. Era a História do cinema em minhas mãos e eu deveria garantir que ela tivesse continuidade.

Cenas-chave do filme como essa são recriadas de forma poligonal e podem ser conferidas pelos jogadores de ângulos inusitados. O assassinato de Luca Brasi (Lenny Montana, 1926-1992) e a tentativa de assassinato de Vito Corleone, por exemplo, são vistos através de uma vidraça, e têm conseqüências imediatas na ação do game. O Dom está caído e cabe a você escoltá-lo em segurança até o hospital. Assim, o filme se desenvolve aos poucos, sempre de forma interativa e com poucas liberdades narrativas, como mudanças na ordem de fatos para adequá-los melhor à mídia.

Mesmo se um ou outro jogador não tenham grande interesse em acompanhar Clemenza (Richard S. Castellano, 1933-1988) na cena do assassinato do dedo-duro Paulie Gatto (John Martino), as ações que acontecem paralelamente à narrativa devem agradá-los. Essa expansão de possibilidades - um dos grandes atrativos do gênero mundo aberto - é outra grande atração do game. As ações que podem ser desenvolvidas paralelamente à narrativa incluem o fortalecimento da famiglia Corleone e sua escalada na hierarquia da organização criminosa. Pra que sossegar como caporegime se você pode chegar a Dom?

Para tanto é necessário obter respeito e esse é um dos sistemas mais intrincados e interessantes da aventura. Extorquir comerciantes e eliminar famílias rivais - são quatro: Tattaglia, Barzini, Cuneo e Stracci - dão dinheiro e pontos para permitem que seu personagem ganhe divisas e prestígio. Vestir-se bem e tratar bem as damas também ajuda. ;-)

Para vencer uma família inimiga é necessário invadir seus quartéis generais. Mas o ponto de partida para tanto é tomar os estabelecimentos que elas controlam - que geralmente escondem negócios ilícitos, que também podem ser capturados, em seus porões.

Cada comerciante tem seu ponto fraco e sua resistência em lidar com a máfia. Alguns abrem a mão por proteção com apenas uma ameaça verbal. Outros, precisam ser encorajados: Uns sopapos, quebradeira na loja, ameaças aos clientes ou mesmo enfiar a cabeça deles na vidraça ou no forno de padaria costuma funcionar. Mas cuidado! Os exageros são punidos com a lealdade do comerciante a uma família rival. Aí não tem jeito. Só mesmo uma bomba para resolver as coisas.

A coisa não pára por aí, porém (não falei que era intrincado?). Há também as companhias de transportes, que fazem circular dinheiro e recursos pela cidade de Nova York - representada no game por cinco grandes áreas: New Jersey, Hell´s Kitchen, Little Italy, Midtown e Brooklyn, todas repletas de pessoas e detalhes. Tais empresas são abastecidas por caminhões que podem ser atacados e roubados, o que também mina a potência da família à qual eles pertencem.

Obviamente, nenhuma ação fica impune e os oponentes dos Corleone não ficam nem um pouco satisfeitos com tantos ataques. Assim, não é difícil que você inicie uma guerra entre as casas, algo que só pode ser controlado por força bruta ou um suborno bem colocado.

Tudo isso exige grande poder de fogo e O poderoso chefão não poupa recursos também nesse quesito. O sistema vai de armas simples, como um taco de baseball, até as barulhentas e explosivas, como a poderosa Limpa Rua. O sistema de combate armado segue a linha de James Bond Everything or Nothing - com mira automática, mira livre e proteção em esquinas - e a briga com os punhos lembra uma versão simplificada do ótimo Fight Night Round 2. Detone um oponente e você poderá dar cabo dele de cerca de 20 maneiras distintas - as violentas execuções. A cada movimento desses bem-sucedido, o jogador é recompensado com mais pontos de respeito. E por falar em execuções, missões paralelas de assassinato também estão disponíveis e dão um bom dinheiro.

Outro ponto extremamente positivo do game é o editor de personagens. Antes de começar a jogar você é convidado a criar seu próprio mafioso e o sistema inclui minúcias como a distância entre a boca e o nariz, o tamanho das orelhas e até a largura das narinas! O meu ficou a minha cara, o que só aumenta a emoção em cenas com o elenco do filme. Quando começa a tocar a clássica trilha sonora de Nino Rota então...

A única grande ausência é mesmo Al Pacino, que não aceitou dublar Michael Corleone ou que seu rosto fosse usado no jogo. Em seu lugar entrou o ator e dublador Joseph May (Dead like me, Band of brothers), o que prejudica de forma dramática a sensação de estar dentro da obra-prima de Coppola. Em todas as vezes que ele aparece, há uma imediata desassociação. Curiosamente, Pacino aceitou dublar outro game, Scarface, o que mostra que uma pressão monetária extra da EA poderia ter resolvido o problema.

De qualquer forma, O poderoso chefão é um entretenimento impressionante, com alguns momentos realmente dignos do filme. Completa o pacote um DVD de extras com o making of do jogo, recheado de entrevistas e cenas do filme. Mas o Omelete recomenda: antes de começar a jogar passe numa trattoria, compre uma porção de pastasciutta de sua preferência, uma caixa de canoli e uma boa garrafa de vinho. Coloque o monitor sobre uma toalha xadrez e não esqueça seu babador. Você vai precisar. Para a comida e também para o game.