Sabe aquela cena, nos primeiros minutos do primeiro Matrix, em que Neo é acordado em seu apartamento por amigos que lhe pedem um disco? O personagem de Keanu Reeves recebe seu pagamento e vai buscar o material - que está dentro de um livro-falso, com as páginas recortadas. Que livro é aquele? Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard.

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A capa do livro é mostrada intencionalmente no fotograma, como uma espécie de "piscada" dos irmãos Wachowski para parte de sua platéia - a parte que leu ou pelo menos conhece o pensamento do filósofo francês. A idéia da Matrix tem uma de suas bases, sem dúvida, nas idéias de Baudrillard.

O autor apocalíptico, ex-professor de Sociologia na Université de Paris, terror das faculdades de Comunicação, faleceu na terça-feira, dia 6, aos 77 anos. Escritor de mais de 50 livros, Baudrillard era conhecido por sua crítica ferrenha da sociedade contemporânea - da publicidade, do jornalismo, da política, dos EUA e, basicamente, de tudo mais.

A idéia que desenvolve em Simulacros e Simulação, publicado originalmente em 1981, é a de que o que nós vemos como realidade não passa de sinais e símbolos (simulacros) que apenas simulam a realidade. Vivemos, de certa forma, um mundo de relações artificiais, sem real conteúdo por baixo.

Daí para imaginar um mundo dominado por computadores que injetam na cabeça das pessoas uma "realidade falsa" - a idéia central de Matrix - foi o passo dos irmãos Wachowski (apesar de Baudrillard não ser a única referência deles). "Bem-vindo ao deserto do real", frase que Morfeu diz a Neo em certa cena do filme, é também frase dos livros do próprio Baudrillard.

O francês sempre negou que fosse inspiração para o filme, dizendo que tinha sido mal interpretado. Disse que preferia outros filmes que representavam melhor a relação entre o real e os simulacros, como O Show de Truman, Minority Report e Cidade dos Sonhos. Ele chegou a ser contactado pela produção hollywoodiana para colaborar nos dois filmes finais da trilogia, mas recusou o convite.