Um dia alguém me ofereceu ketchup com goiabada. A minha primeira impressão foi de confusão. Por que eu combinaria algo como ketchup, que na minha mente é salgado e vai com coisas salgadas, junto com uma fruta doce feito goiaba? Me pareceu uma daquelas ideias gourmet que tem mais valor do choque do que como alimento em si. Mas então eu mergulhei a batata frita no condimento e voilá: ketchup com goiabada se transformou em algo que eu amo. Uma combinação à primeira vista bizarra e sem sentido terminou sendo uma agradável surpresa.

Mario + Rabbids Kingdom Battle é exatamente isso.

Desde que foi criado, Mario tem se mostrado um dos personagens mais versáteis dos videogames. Há jogos de plataforma, jogos 3D, de festa, de kart, luta, RPGs e esportes. O encanador se encaixa bem em quase todo tipo de ambiente. Mas com Rabbids? Por mais que eles tenham feito sucesso, vamos combinar: os coelhinhos da Ubisoft são o equivalente aos Minions na indústria dos games. Eles não tem uma personalidade ou características únicas, e servem mais como avatares através dos quais piadas são feitas

E ainda sim, aqui estou eu, considerando onde Kingdom Battle se encaixaria no ranking de jogos derivados do Mario. Seu humor inteligente, mas eficaz, sua excelente e acessível jogabilidade de estratégia, e acima de tudo, a forma como ele abraça e reproduz os elementos dos games do encanador da Nintendo combinam para criar um dos melhores títulos do Switch até agora, perfeito para quem quiser jogar de forma casual e para alguém que quer uma experiência um pouco mais profunda no híbrido de console e portátil.

Então, como isso aconteceu?

Mario + Rabbids Kingdom Battle
Ubisoft

Em primeiro lugar, os desenvolvedores da Ubisoft escolheram um gênero excelente de games - RPGs de estratégia - e conseguiram transformá-lo em algo que consegue ser acessível (a presença de Mario e Rabbids vai atrair crianças para esse jogo, não há dúvidas sobre isso) e, ao mesmo tempo, evita criar um gameplay mastigado e simples, o que sem dúvida levaria a uma experiência tediosa, especialmente depois das primeiras 10 horas de jogo.

Imagine XCOM, mas para quem não quer se preocupar demais com a jogabilidade (aliás, Mario + Rabbids é um excelente jogo de podcast). Você tem uma visão isométrica de um campo de batalha dividido em células, e pode movimentar os três personagens que controla pela área, posicionando-os para atacar inimigos ou se proteger dos mesmos. O mais interessante é ver que a Ubisoft acertou em cheio na boa e velha fórmula de criar algo fácil de se aprender, mas que requer um pouco mais de dedicação para ser dominado. A princípio, não há muitas variáveis na jogabilidade. Você apenas mantém em mente o posicionamento de ambas equipes e objetivo que cada embate (derrotar todos os adversários, alcançar o outro lado do mapa, etc).

Uma combinação à primeira vista bizarra e sem sentido terminou sendo uma agradável surpresa.

Mas, especialmente após a conclusão do primeiro mundo, Mario + Rabbids começa a jogar algumas bolas curvas em direção ao jogador. Diferentes tipos de inimigos vão aparecendo, dificultando sua vida e adicionando uma boa dose de imprevisibilidade para as batalhas. Felizmente, o jogo nos equipa para lidar com tudo isso. Quando você começa a desbloquear diferentes armas e habilidades para cada personagem, mais e mais fatores devem ser levados em conta na hora de construir uma estratégia vencedora. Há ações que valorizam a proximidade com outros membros de sua equipe, ou que acontecem durante o turno do outro time, e combinações que podem ser feitas para maximizar o dano causado.

Mario + Rabbids Kingdom Battle
Ubisoft

Por exemplo: Você pode usar um personagem para arremessar o outro por uma distância que seria impossível percorrer a pé. Até aí, nada demais. Diversos jogos de estratégia oferecem esse conceito, que é simples, mas eficaz. Mas, aqui, você desbloquear habilidades que transformam esses pulos em ações de cura ou que anulam status que estão prejudicando um dos membros de sua equipe. Esse é o tipo de decisão que a Ubisoft faz para recompensar aqueles que se dispuserem para pensar além da superfície do gameplay. Sim, para alguém que está acostumado a depositar horas em algo como Final Fantasy Tactics, isso pode parecer brincadeira de criança, mas Mario + Rabbids faz questão de construir uma certa satisfação nas coisas simples, tornando cada movimento, por mais básico que seja à primeira vista, uma escolha válida na hora da batalha.

Grande parte disso vem das árvores de habilidade de cada personagem. Não se engane, isso é, de fato, um RPG. Se cada vez mais vemos jogos inserindo sistemas para desbloquear ações especiais simplesmente para ter algo assim, sem oferecer ao jogador habilidades que realmente valem a pena ser desbloqueadas, Mario + Rabbids está no lado oposto disso. Eu quero desbloquear cada opção, experimentar com trios diferentes e combinar estratégias individuais para formar um novo curso de combate.

O loop de gameplay de Mario + Rabbids é o que deixa isso tudo satisfatório. Quanto mais habilidades você abre, mais complexo e engajante o gameplay fica, e ao mesmo tempo você recebe mais opções de mecânicas que, por sua vez, vão aprofundando a jogabilidade do RPG. A cada passo dado na progressão de personagens, parece que o jogo passa a confiar mais em você, jogando mais tempero nas batalhas e aumentando, assim, a qualidade da experiência. Felizmente, a Ubisoft nunca exagera nisso colocando quantidades absurdas de números ou equipamentos na sua tela.

Aliado a isso está uma jogabilidade que te prende a cada momento. As batalhas, sozinhas, são divertidíssimas. Quebra-cabeças que trabalham bem a dificuldade - vários encontros se mostram difíceis, mas nenhum aparenta ser impossível à primeira vista - e dão ao jogador inúmeros caminhos para a vitória.

Mario + Rabbids Kingdom Battle
Ubisoft

Ao redor disso tudo está um jogo que, apesar de trazer vários elementos novos para o Mario, ainda abraça muito da fórmula do encanador. Há quatro mundos para explorar, cada um com suas diversas fases, estéticas e desafios secretos. Moedas (amarelas, vermelhas e azuis), quebra-cabeças simples mas engajantes, que ajudam a quebrar qualquer possível repetitividade e construir um ritmo agradável, especialmente quando combinados com as batalhas. Tudo que você pode querer de um jogo do encanador está aqui.

Na verdade, é impressionante ver o quanto Kingdom Battle realmente tem a pegada de um jogo do Mario. Dos seus lindos visuais até a forma como a campanha é estruturada, o jogo deve agradar qualquer fã do encanador que quer experimentar algo diferente, mas sem perder de vista aquilo que torna o mascote da Nintendo e seus games tão divertidos em primeiro lugar.

Sempre que você termina um mundo, é possível retornar ao mesmo para buscar segredos, entrar em áreas antes inacessíveis, e participar de desafios secundários. É aqui que o jogo deixa a desejar um pouco. Por mais que o fator replay seja bem-vindo, o conteúdo presente nos mundos depois que você os termina pela primeira vez são, normalmente, pouco inspirados. Eles não são ruins, mas falta a criatividade que outros lados do RPG apresentam.

Mas Mario é apenas uma das metades do jogo. A outra são os infames Rabbids. Transformar os coelhinhos de coisinhas irritantes para elementos com tanta personalidade quanto Mario, Luigi e seus amigos é uma tarefa impossível, mas a nota notícia é que eles nunca são um incômodo no jogo. Felizmente, a Ubisoft não tenta se apoiar demais nos seus mascotes. Eles estão lá pra serem usados como sempre foram. Os Rabbids são a principal fonte de humor do RPG.

Mario + Rabbids Kingdom Battle
Ubisoft

Ss versões Rabbids de Mario, Luigi e Peach, em particular, são onde a Ubi tenta brincar mais com os coelhinhos. Eles têm uma certa personalidade, nada que vá torná-los seus personagens favoritos no jogo, mas o suficiente para justificar sua presença. E vamos combinar, não é como se eles precisassem ser mais do que isto nesse caso. Outra surpresa agradável é ver como Mario + Rabbids trabalha o humor. Nem toda piada acerta o alvo, mas eu vi sorrindo e até dando risadinhas mais vezes do que esperava. Os desenvolvedores parecem estar cientes do que são os Rabbids, e não têm medo de tirar uma com a cara deles.

Mario + Rabbids não vai mudar a opinião de ninguém sobre os coelhinhos, mas se eles são a única barreira que te impediria de dar ao jogo uma chance, estou feliz de poder informar que em nenhum momento a participação deles nessa união inesperada foi prejudicial. De fato, esse é um produto repleto de surpresas.

A maior delas é justamente o fato dele ser um ótimo jogo. Um RPG de estratégia por turnos feito com os personagens e os Rabbids é, no papel, uma ideia que no mínimo parece ser uma forma simples de ganhar dinheiro, e no máximo uma das piores combinações já imaginadas por desenvolvedores. Mas, assim como ketchup de goiaba, quando você dá uma chance para esse estranho casamento, não quer parar mais.

Nota do crítico