Com o Campeonato Mundial de League of Legends em andamento, mais traços caóticos da comunidade de games e eSports são colocados nos holofotes: ao mesmo passo que os atletas se esforçam para aproveitar a visibilidade que lhes é dada, uma grande parte da torcida brasileira caminha em ritmo contrário, apontando dedos cegos e criticando os jogadores com argumentos voltados ao lado pessoal e com pouco - ou nenhum - embasamento técnico.

O assunto não é novo: a comunidade de jogos online é tóxica. O tópico é muitas vezes deixado de lado com ombros caídos e conformidades em tom de “fazer o quê?”, mas não deve ser encarado assim. Algumas empresas como a própria Riot Games, a Blizzard e a Valve trabalham para criar ambientes mais saudáveis em seus jogos, seja por meio de sistemas de denúncia e feedback, honra e elogios, eventos como o próprio Acampamento Yordle ou medidas de punição severas para ofensas e ataques dentro dos jogos.

A situação se complica quando influenciadores ou até jogadores profissionais reforçam essa prática. No caso de atletas das ligas oficiais, as empresas não fazem rodeios ao aplicar multas e punições bastante pontuais quando os mesmos deslizam nas questões de respeito e educação. Porém, mesmo casos assim poderiam ser tratados de uma maneira cujo resultado reflita em ações positivas e não o comum “nossa, que exagero” da comunidade — essa resposta é um reflexo da situação atual.

No universo de League of Legends, casos como o de Yun “Road” Han-Gil (punido por ameaçar um colega de equipe), Konstantinos "FORG1VEN" Tzortziou (punido por comportamento tóxico nas filas ranqueadas), Alfonso "Mithy" Aguirre e Erlend "Nukeduck" Våtevik (punidos por racismo), Dennis "Svenskeren" Johnsen (punido por xenofobia), Diego "Vendetta" Ramirez e Bastian Guzman (notificados e punidos por comentários xenofóbicos), Guilherme "Vash" Dal Buono (punido por comportamento tóxico) e Felipe “Yoda” Noronha (punido por xenofobia), foram importantíssimos para passarem uma mensagem de seriedade ao público casual, afinal, no universo não-profissional, esses acontecimentos são ainda mais comuns.

O caso de influenciadores é mais delicado: alguns que prezam pelo humor sem limites (e até ofensivo) e esquecem do bom senso, propagam a postura tóxica em seus vídeos e streams. Mesmo quando punidos, retornam muitas vezes com atitudes ainda mais problemáticas e acabam reforçando na comunidade práticas que colecionam risadas ao mesmo tempo que ferem pessoas, afinal, a linha tênue entre humor e desrespeito anda difícil de identificar.

Infelizmente, mesmo com as iniciativas das desenvolvedoras, o espaço de interações entre jogadores ainda é um ambiente extremamente inflamável: qualquer coisa pode criar uma cadeia de explosões, desde um desempenho ruim, um erro bobo ou até mesmo ofensas sem motivos específicos.

No âmbito profissional, pegue de exemplo a Team oNe, equipe brasileira que conquistou o Campeonato Brasileiro de League of Legends e representou o país na Fase de Entrada do Mundial: apesar de não ser obrigatória a torcida para a equipe, suas conquistas estão trazendo visibilidade para o cenário nacional. Apesar das conquistas positivas, alguns “entusiastas” — em aspas, afinal, quem torce para o cenário não dever agir assim — não medem as ofensas pessoais e palavras de baixo calão. Isso não beneficia ninguém.

Se em algum momento passou pela sua cabeça algo como “Mas a derrota deles é motivo para comentários assim”, você precisa rever a forma que está analisando o cenário competitivo e a sua participação nele. Críticas fazem o cenário crescer. Ofensas não.

Fora do mundo dos eSports, as vítimas desse comportamento só se acumulam: jornalistas que escrevem e analisam jogos, desenvolvedoras que por algum motivo adiam um título, jogadores casuais que querem apenas se divertir... muitas vezes quem ofende esquece que atrás das telas há outro ser humano também.

Pode parecer hipérbole, invenção ou até ‘mimimi’, mas o cenário brasileiro é atualmente um dos mais tóxicos do mundo. Talvez por pontos que estejam enraizados na educação do país, o ritmo de ofensas por gênero e de xingamentos segue fervoroso, muitas vezes marcando eternamente a experiência de um usuário: aquilo que deveria ser extremamente divertido e gratificante acaba se tornando uma experiência triste e frustrante.

Conversando com alguns jogadores pertencentes às comunidades mais populares desses jogos nas redes sociais, a experiência parecia ser unânime: todos já passaram por alguma situação desagradável, seja ela dentro do jogo ou após, onde pessoas o ‘perseguiram’ para o ofender em mensagens privadas, seus perfis pessoais e outros meios de contato.

Em alguns casos, a consequência dessa interação danosa marcou para sempre suas experiências, fazendo com que nunca mais se sentiram confortáveis em participar de partidas online ou de interagirem com outros usuários — ficando de fora de todo um novo universo que pode sim ser maravilhoso dentro das experiências multiplayer.

Fora as questões de jogabilidade, outros pontos também se tornam, na cabeça de certos usuários, motivos para desferir ofensas sem freios: não aceitar alguém em sua lista de amigos, não passar sua tag em plataformas como a Battle.net, PSN ou Xbox Live, ou até mesmo o fato de você usar um apelido ‘feminino’ dentro do jogo acabam criando situações extremamente desconfortáveis e recheadas de ofensas sem sentido.

Uma das grandes realidades atuais são as questões de gênero; um assunto que se torna ainda mais delicado por conta da negação que há em aceitar a existência desse problema, o famoso “é só mimimi”.

Infelizmente, é mais do que comum você ser ofendido ou desacreditado por ser mulher, seguindo aquela mentalidade arcaica da diferença das capacidades entre os sexos. Isso acaba sendo reforçado até mesmo por usuários com influência que reproduzem frases como “vai lavar uma louça” sem medir o peso delas.

Xenofobia. Preconceito. Machismo. Falta de respeito e educação. Dentro das ‘brincadeiras’ ou dos momentos exaltados dentro de um jogo acirrado, ficam escondidos questões tristes, cruéis e retrógradas.

As desenvolvedoras possuem um papel crucial na solução dessa infeliz realidade, e algumas acertaram nos últimos tempos ao implantar medidas como o sistema de feedback para denúncias, sistemas de bom comportamento com recompensas e os evento de cooperação da comunidade — apesar de que o último acabou como uma competição entre os grupos participantes. Mas ainda há muito a ser feito.

É preciso não só punir os erros com mais rapidez e eficiência — visto que jogadores banidos conseguem rapidamente outras contas e repetem o comportamento em ciclos sem fim — mas também enaltecer os acertos: é comum ver criadores de conteúdo que fazem trabalhos educativos e saudáveis para a comunidade receberem pouco ou nenhum apoio, ficando esquecidos em um mar de bordões repetitivos de diversos streamers populares que nem sempre passam essa mesma postura.

Há uma necessidade de educar os jogadores com medidas que entreguem ao usuário bons exemplos, assim o ritmo para a melhora passa a se mover com mais facilidade. O maior esforço deve vir da própria comunidade, que atualmente insiste em repercurtir atitudes danosas, por isso é tão importante a intervenção da desenvolvedora. O jogador segue, da mesma maneira que fica chateado quando alguém o ofende em uma partida ranqueada, rindo sem culpa quando assiste um usuário famoso dando rage em sua livestream.