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O programa “Preparando Campeões” realizado pela organização CNB e-Sports Club é basicamente uma peneira para selecionar os melhores jogadores aptos a ingressarem no mundo profissional de League of Legends. Desde o Elo Bronze até o Desafiante, diversos brasileiros são testados dentro e fora do jogo, num processo no qual a preparação psicológica também é um fator determinante. Em 2015, pela primeira vez, uma competidora passou na peneira.

Vittória Dutra Teixeira Pirró foi a única jogadora selecionada, marcando presença por representar muito bem na Selva (Jungle). O ingresso da jovem no programa mostra como a falta de representatividade feminina no universo dos eSports não resulta da ideia – errônea – que dissemina a falta de habilidade das mulheres em jogos online.

A jogadora tem apenas 15 anos e mesmo assim já teve que lidar com diversos comentários preconceituosos relacionados ao fato de simplesmente não ser do sexo masculino. Rafael Pereira, psicólogo responsável da CNB e também uma das principais cabeças por trás do projeto “Preparando Campeões”, comentou sobre as críticas recebidas:

Assim que a Vittória foi anunciada como uma das vencedoras do projeto, recebemos reclamações dos próprios candidatos dizendo que ela não tinha capacidade de jogar, que seria apenas um marketing por ser mulher, nova e bonita para chamar a atenção para o projeto. E foi demonstrado justamente o contrário: ela se provou para os profissionais que fizeram as avaliações”, explicou o psicólogo e também pesquisador pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Em um caso específico, um jogador disse que viu o histórico dela e falou que ela não era capaz o suficiente. Eu questionei se ele havia visto o histórico de todos os outros vencedores, e ele havia dito que não. Então eu comprovei que isso é um sinal de machismo: quando você busca somente na mulher um defeito para dizer que ela não pode participar como uma profissional. A Vittória passou assim como todos os outros candidatos que foram aprovados”, finalizou Pereira.

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Rafael Pereira

A comunidade de games competitivos é claramente um ambiente hostil para o sexo feminino. Segundo uma pesquisa realizada por Emily Matthew no blog Pricecharting, cerca de 63% das mulheres são assediadas enquanto jogam online. O número de homens assediados é quatro vezes menor.

Além disso, os tipos de ataques encontrados nesse cenário vão desde assédio sexual, ameaças físicas, constante obsessão dos usuários (o infame stalk), entre outros. Portanto, é de se esperar que os games competitivos não possuam muitas jogadoras a nível profissional: aquelas que persistem precisam aguentar uma carga absurda de negatividade. Sendo assim, é admirável a forma como uma adolescente de apenas 15 anos consegue superar todas essas adversidades e continuar sua busca pela profissionalização.

Vittória pode contar não apenas com seu novo time, que agora traz todo o apoio necessário, mas também com a família, que sempre esteve do seu lado. Thayse Dutra Teixeira e João Paulo Pirró são os pais de Vittória e é exatamente graças a eles que o gosto por games da jovem aflorou, pois a criação da filha foi realizada em um ambiente amigável aos jogos. “Jogar é o momento que estamos juntos. Jogamos League of Legends, obviamente não é nossa especialidade, é a dela. Para nós é uma diversão, para ela agora é uma profissão”, diz o pai.

A formação dos pais - João é engenheiro civil e Thayse é formada em ciências da computação - deu a cyberatleta contato com o computador desde cedo. Vittória nunca teve qualquer limitação ou precisou ouvir que “videogames não são para meninas”, além de ter uma mãe que completou um curso majoritariamente dominado por homens.

Os exemplos vindos de casa foram os mais positivos possíveis. Seu pai, inclusive, participou de campeonatos amadores de eSports em 2014. O casal oferece total apoio à carreira da jovem, que não pensa pequeno em relação ao seu futuro: “Eu quero em alguns anos atingir o cenário competitivo e jogar ao lado de todos de uma maneira igualitária”.

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Vittória e sua família

E Vittória não está equivocada nesse sonho. O psicólogo da CNB comentou sobre suas expectativas para a jogadora em relação ao projeto: “Foi permitido que entrassem competidores a partir de 13 anos, porque temos tempo até os 17 anos deles, para que eles possam treinar, aprender a lidar com o cenário, estar preparado - não só no jogo, mas também fora para entrar nesse cenário competitivo. Ela está inclusa nesse projeto, podendo ter a capacidade de entrar na cena com a mesma força, a mesma intensidade, a mesma ideia de ser campeã do CBLOL, ser campeã do mundo e ser uma verdadeira profissional”.

No “Preparando Campeões”, o único tratamento diferenciado recebido pela adolescente em relação aos outros jogadores é justamente pensado na área relacionada ao sexismo. A assessoria de mídia da CNB trabalha lado a lado com Vittória para ajudá-la a administrar suas redes sociais e lidar com comentários preconceituosos, enquanto os psicólogos da organização conversam com a cyberatleta sobre seu papel no jogo, reforçando o esforço da atleta e a ideia de que comentários externos não afetam sua habilidade.

Porém, nem sempre esse equilíbrio é fácil de conquistar. Quando começou a se inserir no universo de League of Legends, a jogadora ouvia recusas o tempo todo. Alguns de seus colegas de jogo diziam que não se juntariam a ela in-game por justamente ser mulher. Hoje, são eles que pedem para jogar com Vittória.

Ela superou, está dando de 1000 a 0 neles e está correndo atrás, mostrando que não é algo só de homem. As mulheres têm toda a condição física, psicológica, emocional para enfrentar e estar lá junto. É difícil lidar com o machismo? É, mas tem como. Não pode é desistir de tentar”, diz a mãe de Vittória.

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Os vencedores da 2ª edição do programa "Preparando Campeões" da organização CNB e-Sports

Querendo ou não, Vittória é uma das pioneiras no eSport brasileiro, junto a poucas outras jogadoras inseridas no meio. Esse tipo de inclusão vai, aos poucos, derrubando barreiras preconceituosas que persistem nesse cenário muitas vezes dominado por homens e também com idade mais avançada.

Justamente por ser uma cena hostil às mulheres, aquelas que persistem nesse ramo acabam se tornando ainda mais fortes para enfrentar todos os tipos de obstáculos. A cyberatleta não foge disso, com uma personalidade forte e marcante. Sobre os comentários negativos, ela declarou: “Já recebi várias críticas e eu acho que quanto mais pessoas querem te puxar para baixo, significa que você é importante e tem potencial para subir ainda mais”.

Por fim, Vittória ainda dá uma dica a todas as jogadoras que queiram ingressar nesse mundo: “Muita força, que vocês tem muito potencial para fazer o que quiserem. Basta querer”.

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