Cenas Japonesas - Crônicas
de um Brasileiro em Tóquio

Ronald Polito
(Globo)
Flor da Neve e o Leque Secreto
Lisa See (Rocco)
O Menino do Kampung
Lat (Conrad)
Memórias de Minhas
Putas Tristes

Gabriel García Márquez (Record)

A estante deste mês tem os olhos puxados e é arejada por ventos vindos do Pacífico e do Índico. Três livros cujas histórias vêm de muito longe, lá dos confins da Ásia. Um do Japão, outro da China e o terceiro da Malásia. Já que viajar até esses países é um sonho distante para nós, (literalmente pobres) mortais, aproveite para conhecer a cultura e a História desses lugares nessa viagem literária que acaba sendo bem mais "em conta" do que um bilhete de avião.

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Na primeira parada, nosso guia é Ronald Polito, autor de Cenas Japonesas - Crônicas de um Brasileiro em Tóquio. O escritor, poeta e professor mineiro lecionou literatura brasileira durante três anos em uma universidade em Fuchu, na periferia de Tóquio. Porém, mais que um docente visitante, ele foi um atento observador da sociedade japonesa, de seus mais tradicionais costumes e até suas manias mais disparatadas.

Polito comprova impressões que já temos dos japoneses (como o vício por fotografar), mas revela algumas outras facetas que apenas suspeitamos e outras que nunca nem imaginamos, como as peculiaridades do material escolar usado por estudantes e professores. Em cadernos, estojos, canetas e afins, predomina a infantilidade. A certo altura, o autor parece nem mais se chocar quando descobre que um de seus alunos (leia-se universitário de mais de 20 anos) possui um estojinho "cravejado de Mickeys e Minnies".

Essa característica, claro, não se restringe ao material escolar, se espalhando para o vestuário, a decoração... Os celulares são bons exemplos, como o rosa bebê de um outro aluno e o aparelho no formato de um Piu-Piu (de Piu-Piu!), portado por um senhor de meia idade no metrô. O autor se empolga tanto com essas excentricidades dos japoneses que não hesita em colecioná-los, talvez para entender pelo menos uma pequena parte da sociedade nipônica, já que o todo, ele bem sabe, é impossível. E, assim, leva pra casa uma cartelinha de adesivos com os bichinhos-mascotes da delegacia de polícia.

A qualquer lugar ou em qualquer horário, Polito está sempre livre de preconceitos e pronto para se surpreender. É assim dentro de um vagão de metrô, quando fica embasbacado com a habilidade dos japoneses de dobrarem e desdobrarem seus jornais em "uma situação de esmagamento [...] que beira a asfixia"; ou durante um campeonato de sumô, no qual se livrou do preconceito para com o esporte e acabou se emocionando; e ainda quando percebe que em Tóquio não há pichações e talvez o motivo seja a falta de muros vazios, já que todos estão ocupados por propagandas...

Mesmo sendo um acadêmico, Polito não pretende fazer uma análise sociológica, antropológica, filosófica dos japoneses. Nada disso. Sua intenção parece ser a de capturar o dia-a-dia nipônico, o que não desemboca em superficialidade nem em banalidade. Prova disso é o capítulo que trata da improvável combinação de complexo de inferioridade com arrogância que marca este povo.

Mas, enfim, é o caráter despretensioso aliado ao olhar por vezes irônico do autor que são os maiores trunfos do livro, tão bem acabado quanto um perfeitinho origami feito por um japonês - daqueles que por mais que você, ocidental, tente, nunca vai conseguir copiar. Polito conseguiu.

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O destino seguinte é a China, mais especificamente a província interiorana de Hunan, no sudeste do país. A história contada por Lisa See em Flor da Neve e o Leque Secreto se passa em meados do século XIX. Mas antes de detalhá-la, um aviso: o livro todo é, pra dizer o mínimo, desconcertante. Tanto que passei vários dias pensando se citá-lo aqui na coluna era realmente a coisa certa a se fazer. Cheguei à conclusão de que é um mérito, sim, o fato de um texto ter a capacidade de te abalar, de te revoltar, de quase fazer se arrepender de ter começado a ler, de grudar em sua mente por vários dias mesmo você querendo esquecê-lo.

A amizade entre duas chinesas é a personagem central do livro. E como um sentimento tão nobre pode gerar uma obra tão pesada? Basta lembrar que em 1823, ano de nascimento das duas, as mulheres e até mesmo as meninas na China não tinham nenhum direito. Eram vistas como seres inferiores. Estudar, brincar até o fim da infância, se apaioxonar, escolher seus maridos, demonstrar seus sentimentos, visitar os pais ou os filhos quando bem entendessem, andar. Tudo isso (e esses são apenas alguns exemplos) passava longe da vida das chinesas.

E para quem estranhou o fato de andar estar entre a atividades proibidas ou restritas, lembre-se de uma das mais cruéis práticas da sociedade contemporânea: a bandagem dos pés. Esse ato bárbaro, banido oficialmente apenas em 1911, consistia em enrolar firmemente faixas nos pés de meninas de até 6 anos para que eles não crescesse normalmente. Esse incrivelmente doloroso processo durava dois anos, até que os ossos dos dedos fossem quebrados e "dobrados" para trás, e formando um arco no pé - que aliás não é mais pé, e sim um membro desfigurado. Nem é preciso dizer que era impossível se equilibrar normalmente com uma anomalia dessas como base. Existem duas "justificativas" para tal bárbarie. A primeira é que os pés de lírios, como eram chamados, aumentariam o prazer sexual do homem. A outra, mais real, é que sem poder andar normalmente, as mulheres seriam para sempre dependentes dos homens.

Diante de uma cenário desolador desses, o que restava para as chinesas da época? Sua única válvula de escape levava o nome de nu shu, a escrita secreta das mulheres de Hunan. Descoberta pelos ocidentais apenas na década de 60, a escrita foi criada há centenas de anos e era usada para a comunicação entre mãe e filha, irmãs, amigas. Geramente, eram pintadas ou bordadas em lenços e leques. O nu shu quase desapareceu, visto que muitos documentos na escrita eram queimados pelas próprias mulheres, para não serem descobertas. A prática também caiu em desuso quando as mulheres começaram a ser alfabetizadas. Porém, atualmente há escolas de nu shu e diversos estudos que resgatam a tradição.

Depois desse longo preâmbulo, chegamos ao livro em si e sua protagonista: a amizade entre Lírio e Flor de Neve, duas chinesinhas que tiveram seus pés destroçados, seus maridos escohidos por outrem e cuja única função na sociedade era gerar filhos. Entretanto, as duas não se tornaram amigas no arrozal nem nada do tipo. Consideradas especiais e com várias coincidências em suas vidas, elas eram unidas por "madames casamenteiras" em uma aliança conhecida como laotong, algo mais profundo e verdadeiro que o casamento. Essa amizade é o motivo de maior alegria da vida das duas durante décadas. Sustentadas nesse sentimento, elas enfrentaram mortes, surras, decepções e dividiram raríssimos momentos de felicidades. Mas é exatamente o que possibilitou que as duas permanecessem amigas, o nu shu escrito no leque pelo qual se comunicavam, que acaba as traindo. Contar mais tiraria a densidade, o caráter desconcertante do livro - como citado acima, a maior qualidade da história de Lisa See.

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Depois do tenso Flor de Neve e o Leque Secreto, o último destino teria de ser algo mais light: O menino do Kampung - livro ilustrado de Lat, (pseudônimo de Mohammad Nor Khalid), um dos escritores/cartunistas mais populares da Malásia, seu país natal, e de toda a Ásia. Lat nasceu em 1951 e passou toda sua infância em um kampung, um típico vilarejo do interior do país, rodeado de seringais, com casinhas de palafitas e apenas uma rua. Essa é também a história de Mat Som, o protagonista do livro, claramente autobiográfico.

Mat vai aos poucos nos revelando sua infância em uma espécie de diário, que começa logo com o seu próprio nascimento. "É CLARO que eu não consigo me lembrar de verdade do que aconteceu nos primeiros anos da minha vida. Só quando aprendi a falar e pude conversar com a minha mãe é que descobri o que aconteceu nessa época." Assim, numa linguagem simples e direta, ele vai desfilando fatos como sua rotina na casa, já que até os três anos era proibido de sair: "Da janela da frente da casa, eu podia ver um seringal. Adorava olhar pela janela porque era o mais perto que podia chegar do lado de fora. Às vezes eu espichava demais a cabeça pra fora e ficava preso..." Esse humor sutil permeia todo o livro não só nos relatos escritos, mas também nas ilustrações - hilárias.

Lat desenha Mat, ou a si mesmo, como um garotinho nanico, sem pescoço, com o cabelo totalmente despenteado, nariz tripartido (!) e que não pára quieto um segundo sequer. Ou seja, adorável. Encapetado, o garoto tem como principal objetivo da infância ver de onde vinha "o ronco distante que nunca parecia ter fim". Uma dia, ao desobedecer uma das regras da mãe, foi até a draga de estanho e viu "uma coisa enorme flutuando no grande lago de lama. Um monstro!"

Como se tivesse contando uma história a um amigo, o autor segue narrando os fatos de sua, ops, da vida de Mat: o ingresso, aos 6 anos, numa escolinha para aprender a pronunciar o árabe corretamente e assim ler o Alcorão, a época de ser circuncidado, a primeira vez que sai do vilarejo, o cinema, os exames, as novas emoções... Enfim, o cotidiano de um menino arteiro em seu querido kampung servem para resgatar, com um humor perspicaz e deliciosas ilustrações, o pacato passado rural da Malásia - em nada parecido com a frenética Kuala Lampur de atualmente e suas torres mais altas do mundo.

Mantendo a promessa

O jornal inglês The Guardian tem uma seção, na página de literatura, chamada "The Digested Read". Em poucas palavras eles fazem um resumo "livre" da obra, mantendo o estilo do autor. John Crace, o responsável por essa seção hilária, tem como alvo os livros mais hype do momento e está sempre munido de um sarcasmo tipicamente (e deliciosamente) inglês. Minha idéia inicial era fazer algo parecido. Exercer uma função de John-Crace-wannabe. Mas ele "reescreve" esses sucessos literários sem piedade. E fazer isso com uma obra de Gabriel García Márquez, mesmo ela não sendo nenhum Cem Anos de Solidão, seria um pecado incomensurável. Assim, para manter minha promessa de trazer sempre um livro de nossos hermanos latino-americanos, segue um aperitivo para você que ainda não leu Memórias de Minhas Putas Tristes, que a essa altura já foi tão comentado e resenhado que todos sabem que é leitura obrigatória.

"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.
[...]
Às onze fui aos meus assuntos de rotina no banheiro, onde estava sua roupa de pobre dobrada sobre uma cadeira com um esmero de rica: um vestido de algodãozinho barato com borboletas estampadas, umas calcinhas amarelas de chita e umas sandálias de corda trançada. Em cima da roupa havia uma pulseira de miçanga e uma correntinha muito fina com a medalha da Virgem. Na beira da pia, uma bolsinha de mão com um batom, um estojo de ruge, uma chave e umas moedas soltas. Tudo tão barato e envilecido pelo uso que não consegui imaginar ninguém tão pobre como ela.
[...]
O senhor trabalha em quê? Sou jornalista. Desde quando? Faz um século, respondi. Não duvido, disse ele. Apertou a minha mão e se despediu com uma frase que podia ser um bom conselho ou uma ameaça:
- Vá com muito cuidado.
[...]
Quando deram as sete na catedral, havia uma estrela solitária e límpida no céu cor-de-rosas, um barco lançou um adeus desconsolado, e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.
[...]
Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.
[...]
Não trocaria por nada neste mundo as delícias de meu desassossego.
"

Eu também não trocaria, Gabo!

Mês que vem tem mais! Até lá!

Leia mais Bookends*

* Bookends = objeto usado, geralmente em pares, para manter uma fila de livros em pé, tudo organizadinho na estante :o)