Pouco mais de dois meses atrás as plataformas de transmissão AzubuTV e HitBox anunciaram a parceria milionária (em torno de US$ 10 milhões) que resultou na Smashcast, portal que almeja concorrer com a Twitch em transmissões em tempo real. Mas não são somente investimentos milionários que circulam a empresa — dívidas também seguem o mesmo caminho.

Apesar das promessas de novos estúdios, mais estrutura para os criadores de conteúdo e ferramentas de integração com os espectadores, a plataforma não parece ter se desenvolvido como desejado, além de estar em uma situação delicada com diversos parceiros nacionais: uma dívida de milhares de dólares circula a fama da empresa no país e, além dos conflitos que não parecem ter fim entre os parceiros e a plataforma, a situação interna entre a Azubu e os investidores também não parece ser nada positiva.

De acordo com informações enviadas exclusivamente para nossa redação, pouco antes da união das plataformas a empresa enviou para todos os parceiros com contrato ativo na Azubu um email garantindo a proteção e continuidade dos contratos depois da parceria. Ou seja, os criadores de conteúdo manteriam os valores e acertos de seus contratos mesmo depois da junção de plataformas:

Porém, ao conversarmos com alguns parceiros e ex-parceiros, descobrimos que a empresa estava com problemas ao entregar os pagamentos acertados nos contratos antes mesmo da junção das empresas e, quando procurados, acabavam respondendo evasivamente ou sem respostas conclusivas. Ao que parece, isso aconteceu não só com criadores de conteúdo independentes mas também com equipes de eSports.

Nós sempre ouvíamos que a situação ia melhorar, mas na real nunca melhorou.

O criador de conteúdo Victor Ludgero conversou conosco e desabafou: “Me tornei parceiro em outubro de 2015, de lá pra cá, somente em três oportunidades eu recebi em dia. Só isso já era um problema, visto que a empresa já tinha um histórico de atraso nos pagamentos. Como os atrasos eram de alguns dias, os parceiros estavam relevando.

"Nós sempre ouvíamos que a situação ia melhorar, mas na real nunca melhorou. Essa situação toda alcançou um nível inaceitável a partir de março desse ano: os parceiros estavam cientes da fusão da empresa com a antiga Hitbox e isso até estava animando a gente que a situação poderia finalmente melhorar, mas na real foi só ladeira abaixo… Eu e muitos outros streamers estamos sem receber deles há meses. Falando por mim, estou com três meses de trabalho sem receber, referentes à fevereiro, março e abril desse ano”, completa.

Ao perguntarmos um valor médio do quanto a empresa estaria lhe devendo, Ludgero preferiu não revelar, mas comentou que o valor é substancial e referente à três meses de trabalho extensos na plataforma que prometia pagamentos generosos.

De acordo com o youtuber e streamer, a empresa estipulava prazos de 15 dias para a quitação das dívidas, porém o pagamento não chegava e enviavam outro prazo semelhante, se tornando um ciclo enorme de atrasos. A situação continuou até que passaram a não responder as tentativas de comunicação dos usuários.

Com a intenção de não ficar parado — afinal, as livestreams compõe grande parte de sua renda — Ludgero procurou a empresa questionando sobre o contrato e informando não ter interesse em continuar com a parceria, visto que a empresa quebrou cláusulas acordadas anteriormente ao descumprir pagamentos e informações. Mesmo com a iminente perda de um grande parceiro, a empresa não lhe deu nenhuma resposta e o criador de conteúdo migrou suas transmissões para uma plataforma concorrente.

Outro ex-parceiro da empresa reforçou o posicionamento sobre os atrasos de pagamento e afirmou ter escolhido sair da plataforma e migrar para outra por conta das inúmeras restrições da Azubu, falta de suporte aos usuários e os recorrentes atrasos que aconteciam, sendo considerada a pior empresa com que já trabalhou.

Para entender melhor o lado da Azubu na história, procuramos alguns funcionários e ex-funcionários da empresa e as informações que obtivemos não foram nada animadoras: de acordo com eles, o problema está enraizado nos investidores do projeto e muito além da plataforma de transmissão.

De acordo com a fonte — e posteriormente apurado com documentos e notícias globais nos sites DotEsports, Law360 e LATimes — a Azubu tem como financiador o Sapinda Holding BV, um grupo que realiza investimentos atuando em diversos continentes. A empresa vem chamando a atenção da mídia internacional e das autoridades nos últimos meses por conta de diversos escândalos dos mais diferentes âmbito, tudo isso por conta de um só nome: Lars Windhorst.

O CEO da Sapinda Group e co-fundador da Azubu, Lars Windhorst, está envolvido em inúmeros processos na justiça europeia e teve seus bens congelados por uma ordem do Supremo Tribunal de Londres nessa última semana, além de uma fama perigosa rodeada de empresas que foram levadas à falência, processos legais em que foi considerado culpado e diversos problemas fiscais e financeiros. O empresário já levou ao declínio duas das empresas a qual foi responsável e se salvou por pouco por conta de outros investidores americanos e europeus. Criticado diversas vezes pela mídia, Lars foi o nome mais tocado como culpado da atual situação financeira da Azubu e deixou a questão ainda mais triste e desapontante.

Segundo informações, os processos financeiros da Azubu foram firmados de maneira perigosa: diversos contratos exuberantes foram oferecidos a fim de conquistar o interesse de criadores de conteúdo pela plataforma, porém isso não só causou um desconforto entre os investidores como também criou uma base de promessas falsas e frágeis para os supostamente protegidos pelos contratos.

Com inserções fixas de mais ou menos US$ 1 milhão por mês na empresa, rapidamente as demandas e custos foram saindo do controle e criando a situação atual. No caso do Brasil, o núcleo de responsáveis nacionais precisava pedir fundos para realizar os pagamentos e diversas vezes não recebiam uma resposta ou até mesmo o valor necessário para pagar os streamers.

Depois do comunicado oficial de aquisição da HitBox, até mesmo os funcionários acreditaram que a situação mudaria, afinal, aproximadamente US$ 10 milhões teriam sido investidos na união das plataformas, mas o resultado não foi tão otimista. Com cortes de gastos e de funcionários, medidas para tentar salvar a empresa e investir de forma mais prática, o novo CEO da Azubu, Mike McGarvey, tomou algumas medidas para tentar uma possível recuperação que até o momento não tem se provado eficaz.

Para algumas empresas, como no caso da Santos.Dexterity Team, os ganhos referentes aos contratos da Azubu eram muito importantes para a equipe: ajudavam os streamers a receberem seus devidos salários, incrementavam ganhos extras para os jogadores profissionais da equipe (que faziam transmissões) e construíram uma base ainda mais sólida na credibilidade de ganhos e esports, que ainda é sensível e frágil.

Conversamos com o dono da Santos Dex, Bruno Andrade, e a situação é bastante desanimadora: "Nós sempre procuramos ser o mais correto possíveis tanto com a Azubu, honrando nosso contrato e nos esforçando para promover a plataforma, quanto com nossos streamers, que sempre receberam o que lhes era devido, assim que recebiamos os pagamentos da Azubu."

"No entanto, desde Fevereiro, infelizmente não conseguimos ter nenhum contato com a Azubu, e os ex-funcionários da mesma também estavam totalmente desinformados, desta forma não só não conseguimos receber o que nos era devido por nosso trabalho prestado desde então, como também não conseguimos dar uma satisfação a nossos colaboradores, o que é extremamente frustrante."

Para fechar com chave de ouro a situação entre as empresas, Bruno, que não havia recebido nenhum contato da Azubu desde fevereiro, recebeu quarta-feira (12), sem identificação de autor e apenas utilizando o provedor oficial da Azubu, um email bastante frustrante:

"Em um esforço de resolver essa situação de forma amigável, estamos dispostos a fazer um ajuste ao invés de não enviar nenhum pagamento. Para os meses de Fevereiro e Março, Fifalize foi o único dos 10 Key Broadcasters que completaram o 'valor mínimo' de horas transmitidas. Nós estamos dispostos a pagar 10% do balanço desses dois meses. Depois de Março o contrato foi mudado para a Smashcast e não conseguimos ajudar."

Bruno, explicando a situação, disse que a Dexterity foi diversas vezes prejudicada em seus planejamentos por conta de atrasos com a empresa e que o email é totalmente incoerente com a postura que a equipe sempre tomou.

"Nós sempre substituimos os Key Streamers, nosso contrato previa isso e o cumprimos rigorosamente". Os key broadcasters - seus criadores de conteúdo que atraiam mais público - acabavam desistindo de usar a network da equipe e transmitir na Azubu por conta dos pagamentos que não chegavam, como por exemplo, o Davy Jones do GamePlayRJ e o Vinícios "Fifalize" André, causando a constante pressão de instabilidade da plataforma, o que não justificaria a tentativa de não enviar o pagamento referente ao número correto de horas transmitidas.

Por um outro lado, a empresa HitBox acabou caindo em um fogo cruzado complicado e, apesar dos esforços em ajudar de alguma maneira a situação, negam a responsabilidade pelos acontecimentos.

No caso da Santos Dexterity, os responsáveis que migraram da HitBox para a Smashcast foram os únicos que tentaram se comunicar e prestar suporte à equipe (salvo raras exceções em que antigos responsáveis da Azubu se posicionam sobre o ocorrido), e até mesmo tentaram amenizar o buraco financeiro, fazendo um depósito referente à 30% do mês de maio para a equipe. Segundo o que nos foi passado, a dívida inicial contabilizava mais US$ 50 mil entre os meses de fevereiro e julho.

[Imagem comprova o último pagamento feito para a equipe em 24 de fevereiro, referente ao mês de Janeiro de 2017]

Ao que parece, nem mesmo os funcionários da empresa possuem um posicionamento sobre mudanças ou melhoras para os parceiros e até mesmo a comunicação interna entre a sede nacional e internacional parece estar desorganizada. Funcionarios foram demitidos e muitos estão desanimados com os processos internos, mostrando uma cadeia de acontecimentos que não parece melhorar.

Insatisfeitos, os parceiros desistiram de acreditar nas promessas da empresa e buscaram se reestruturar em outras plataformas. O impacto dessas dívidas é imensurável e reflete não só no bolso de cada parceiro, mas sim no cenário como um todo. Enquanto uma parte luta para estabilizar e firmar bases fortes para criadores de conteúdos e eSports, acontecimentos como esse tiram a credibilidade dos progressos.