[New York, 40 graus]

Pequena nota: nestas Intromissões acrescentamos links para os eventos descritos.
Os interessados terão acesso às fotos e textos complementares.
Escrevam-nos com os feedbacks, dá muito
trabalho para não valer a pena.

[Luz de Lizz]

No Brasil, apesar de lançado, o CD não causou o mesmo impacto de New York. Dreaming wide awake é um dos discos mais celebrados do momento e extrapola a seção de jazz. Com um vozeirão de mezzo soprano, boa compositora e arranjos finíssimos Lizz Wright conseguiu nos fazer esquecer que a belíssima "Stop" (letra de Joe Henry) era a mesma canção-baladona de Madonna do álbum Music. "Salt", seu primeiro disco (2003) também saiu no Brasil e é imperdível. Assim como Maria Rita, Lizz é do time dos que pensam que menos é mais. Arranjos discretos, acústicos, enfatizam as letras que falam de amor e melancolia, com rara generosidade musical.

http://www.lizzwright.net

[A Idade das trevas I]

Doubt (A dúvida) é uma peça que fala da dissolução das certezas. O maior sucesso da temporada da Broadway, Doubt domina os espectadores pelo clima tenso e beligerante, centrando a discussão entre a freira (Aloysius, feita pela tremenda Cherry Jones) diretora de um rígido colégio católico no Bronx e o padre da instituição (Brian F. OByrne) que busca a simpatia dos jovens por sua liderança esportiva e por seus sermões inflamados que tratam de filosofia e fé. A religiosa representa os mais conservadores preceitos da igreja católica e o padre tem um ar de progressista, mas este não é o centro da peça. O texto fala do poder de uma crise gerada pela dúvida. O conforto vem após uma tormenta espiritual.

http://www.doubtonbroadway.com

[Pedofilia e poder]

O ponto de partida de Doubt é o possível abuso sexual da única criança negra do colégio pelo padre. Irmã Aloysius é implacável em sua caça à cabeça de seu oponente intelectual e acredita, sem dúvidas, que o padre realmente molestou a criança. A freira segue até o final da peça inabalável, quando, em um átimo de segundo, entre a mudança de luz e seu rosto percebemos que algo se modificou em sua mente, em seu pensamento e julgamento que trarão modificações para sempre na antipática e dura religiosa. Doubt é uma sacada do gênio John Patrick Shanley que já fora responsável pelo delicioso Feitiço da lua, com Cher e Nicolas Cage.

Os americanos neste período Bush, experimentam o gosto pelos opostos e riem do próprio choro: padre pedófilo atraído por garoto negro em 1964... não se pode negar a ousadia, ou a tentativa de agitar o marasmo! Entendemos assim a função da cultura.

[A Idade das Trevas II]

Altar boyz, grande sucesso da off-Broadway brinca com o que em Doubt é levado a sério. Cinco garotos formam um daqueles conjuntos típicos para teens, mas com canções bem longe de qualquer espiritualidade cristã. Eles se conheceram na igreja do bairro e formam o conjunto que se torna sensação. Vale até a participação de um judeu. As canções são o mais puro pastiche do mundo pop, brincando com o politicamente incorreto, destruindo etnias, movimento gay e especialmente a igreja católica sem nunca apelar para a grosseria e sem perder o profissionalismo peculiar à Broadway. Um toque de ironia em um assunto - fé, instituição religiosa - que geralmente é exageradamente levado a sério.

http://www.altarboyz.com

[A luz que sai das trevas]

O fotógrafo Robert Mapplethorpe por muitos anos foi alvo de polêmica, especialmente após sua morte, quando uma exposição itinerante viajou pelos Estados Unidos (tivemos parte dela no Brasil). A questão era se suas fotografias seriam pornografia e especialmente se uma exposição deste conteúdo deveria receber algum tipo de patrocínio público. Em época de Internet, esta discussão é patética. Hoje, todo mundo vê o que quer e não quer assim que liga o computador. O fato é que a cada exposição podemos notar a genialidade de Mapplethorpe. Na exposição do Museu Guggenheim: Robert Mapplethorpe e a tradição clássica algumas de suas fotografias são comparadas a gravuras dos maneiristas do século XVI. Os curadores tentam provar que Mapplethorpe utilizou o método maneirista que dominou a pintura européia neste século para explicar sua obsessão pelo diferente e exagerado na retratação do sexo. Excessos à parte a exposição conseguiu provar que Mapplethorpe é muito mais do que escândalo, muito mais do que pornográfico.

http://www.guggenheim.org/exhibitions/mapplethorpe/index.html

[Luzes do campo]

Cézanne e Pissaro trocaram correspondência por 20 anos, moraram perto, competiram e criavam de maneira absolutamente diferentes, alternando entre o público e o privado, entre o acadêmico e o ousado. Não há veredito final nesta exposição. É claro que se examinamos a escolha de Cézanne no decorrer de sua carreira percebemos que arriscou muito mais do que Pissaro. Entretanto esta exposição do MOMA (Pela pioneira pintura moderna: Paul Cézanne e Camille Pissaro 1865-1885) privilegia o diálogo e quem sai ganhando é o público que na arte raramente tem a possibilidade de aproveitar das comparações, do paralelo das trajetórias.

http://www.moma.org/exhibitions/2005/cezannepissarro/index.html

[Luzes dos tecidos]

Matisse, sua arte e seus tecidos: a fábrica de sonhos trouxe alguns "segredos" de Henri Matisse ao público que freqüenta exposições. Quem imaginaria que o pintor era ligado no mundo fashion da época, um colecionador de retalhos e os usava para suas composições? A exibição, de delicadíssimo bom gosto, distribui amostras dos tecidos que inspiraram roupas, biombos, toalhas de mesa, tapetes, decoração de ambientes de alguns quadros do pintor, confundindo o público de forma deliciosa: qual é o limite do quadro quando seu elemento inspirador está ao seu lado? Nesta exposição do Metropolitan Museum of Art não está o melhor de Matisse. Não interessa. O intuito da apresentação é chamar à beleza, a cor, a inspiração a partir do mais simples.

http://www.metmuseum.org

[Luz toscana]

The light in the piazza (de Adam Guettel e Craig Lucas) é o melhor musical do momento em Nova York. Produzido pelo Lincoln Center, há muito tempo não víamos letra e partitura voltados, à moda da ópera, para a reflexão, sentimentos nobres e, especialmente, uma crítica ao estilo de vida americano inventado nos anos 50. A peça se passa em Florença, fielmente retratada em sua luz solar, que mistura história, arte, elegância e especialmente a paixão toscana pela vida, pela expressão do afeto. The light retrata as dúvidas de uma matrona norte-americana do sul (a premiadíssima Victoria Clark) em proteger ou não sua filha, leve deficiente mental, de um apaixonado italiano que no seu amor não percebe as limitações da moça. O musical pode ser uma alegoria ao estilo de intervenção e protecionismo americanos. Qual é o limite para o cuidado materno? A mãe protege do mundo ou prepara para ele? E a mãe pátria?

http://www.lct.org/calendar/event_detail.cfm?ID_event=34551107

Redundância: estamos acendendo a luz de dia!
As alegres comadres de Windsor

Shakespeare

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