Confesso: Rogue não é o Assassin’s Creed que eu queria estar jogando. Quando comecei a campanha, estava muito mais animado com Assassin’s Creed Unity, que a Ubisoft não esconde ser o principal lançamento da série para este ano. Com todo o hype voltado para o jogo de PlayStation 4 e Xbox One, é inevitável que este título, lançado apenas para a geração passada, não pareça só mais um filler, cuja função de existir é, basicamente, não deixar na mão quem ainda está no PlayStation 3 ou no Xbox 360 - uma estratégia assumida até publicamente.

É uma pena que o game tenha recebido tão pouca atenção do marketing da Ubi, porque não lhe falta qualidade nem potencial. Por trás da falta de esforço do estúdio francês em nos empolgar, da promoção à própria apresentação do game (o design de menus e mapas é o mais fraco desde o primeiro AC), Rogue é uma aventura bem balanceada, que sabe dosar os acertos dos episódios americanos da saga dos assassinos sob um tema pedido há muito tempo pelos fãs: jogar na pele de um templário.

O protagonista Shay Patrick Cormack começa o jogo como um assassino, e só depois se alia à facção tratada como inimiga até então na franquia, em uma história cujo principal mote é mostrar que ambos os clãs são faces da mesma moeda, e que nem um lado é completamente bom, nem o outro é completamente mau. Fora da simulação dos antepassados, não há nada muito notável: quem revive as memórias de Shay é um funcionário anônimo da Abstergo Entertainment, a paródia da Ubisoft apresentada em Black Flag.

Apesar de a trama não ser a melhor da série - a traição de Cormack resulta do seu comportamento questionador e de uma missão que dá muito errado -, ela é interessante e cumpre seu papel em três pontos: subverte os as noções de bem e mal apresentadas até agora sem rodeios, liga os demais games da “trilogia Kenway” (completada por AC III e AC IV: Black Flag) com AC Unity, e reaproveita de forma conveniente todas as habilidades que fundamentam a jogabilidade.

Déjà vu na Animus

Aliás, reaproveitar é a palavra de ordem em Rogue. O mapa se divide em três partes: o Atlântco Norte, trazendo de volta as navegações em mar aberto de Black Flag; River Valley, que mistura os navios com a exploração campestre e a caça de AC III; e uma Nova York dominada por gangues ligadas aos assassinos - você deve se livrar delas, em um sistema igual à renovação de cidades introduzida por AC Brotherhood.

Embora a reciclagem seja forte, Rogue coloca essas missões familiares a serviço de uma trama diferente (afinal, agora somos templários), e isso resulta em um jogo diferente, que trabalha muito bem um dos principais pontos fracos de Assassin’s Creed: a repetição de tarefas. A campanha principal sempre nos coloca algo novo para fazer: uma hora, detonamos uma indústria de gás venenoso em Nova York; em outra, derrubamos um forte inimigo ou salvamos uma tribo de tropas rebeldes.

As poucas novidades estão ligadas ao fato de jogarmos do lado mais poderoso da guerra. Logo no início do jogo, Shay se apodera de um rifle de ar templário, capaz de atirar dados venenosos ou explosivos, o que, na prática, quebra todas as dificuldades de se infiltrar nos postos inimigos. Mas a traição também cobra seu preço: assassinos ficam à espreita no campo e na cidade, tentando te matar. Assim, somos obrigados a ficar de olho na visão de águia para interceptá-los antes que eles nos ataquem.

Falhas na simulação

Assim como Unity, Rogue também tem sua parcela de bugs e problemas. Houve algumas quedas de framerate e problemas com o cenário - em um dos casos, Shay ficou preso entre a plataforma do cais e a água, me obrigando a recomeçar o jogo. Claro, bugs são normais, ainda mais em games grandes como este, mas ficam menos aceitáveis se considerarmos que ele trabalha com o mesmo motor gráfico de AC III, um jogo de dois anos atrás.

Estes problemas também podem indicar que o jogo acabou canibalizado por Unity. Mesmo para uma gigante como a Ubisoft, capaz de colocar um jogo imenso como este no mercado todo ano, há um limite de orçamento, e ficou evidente para onde a maioria dos recursos de marketing e desenvolvimento foram. Mesmo trabalhando em condições adversas, Rogue é um bom Assassin’s Creed. Poderia ser ótimo, se a Ubi tivesse lhe dado um pouco mais de atenção.

Assassin's Creed Rogue está disponível para PlayStation 3, Xbox 360 e será lançado para PC. A versão testada foi a de PlayStation 3.

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Nota do crítico