Quando coloquei minhas mãos em ARMS, eu demorei para levá-lo a sério. Acho que a Nintendo estava bem ciente desse tipo de reação, já que, depois de apanhar, apanhar e apanhar, seguidas vezes, até mesmo nos níveis de dificuldade mais baixos, eu passei a respeitá-lo como o jogo de luta que ele se propõe a ser.

Como o próprio boxe, o novo jogo (e nova propriedade intelectual) da Big N requer, muitas vezes, paciência e uma boa leitura das ações do seu oponente, tal qual os principais títulos do gênero. Não se deixe enganar pela aparência cartunesca e pelos braços alongados de seus lutadores: esse título de Switch é duro na queda - e é um óbvio resultado do olhar da produtora japonesa para os eSports.

Sua simplicidade, acima de tudo, serve para destacar seu conceito. Em ARMS, você enfrenta seu inimigo desferindo socos com braços alongados. Você pode tentar acertar o oponente de perto ou de longe, e direcionar seus socos, além de poder dar agarrões, pular, esquivar-se e defender. Existem duas maneiras de jogar: uma utilizando os sensores de movimento do JoyCon para socar com o movimento de seu braço, ou de forma mais convencional, com os botões.

O método com os sensores de movimento é divertido, mas serve mais para impressionar sua família e seus amigos, e não permite o mesmo tipo de reação rápida que o esquema tradicional de botões tem - e uma partida de reflexos rápidos exige. Afinal, apesar de ser um jogo ímpar em seu conceito, ele respeita as mesmas dinâmicas de qualquer título de luta competitivo.

Não se tem em ARMS as magias e os movimentos mirabolantes de um Street Fighter ou um King of Fighters (apesar de haver, sim, um “especial” em que o lutador entra em um estado de fúria e desfere vários hits rapidamente), mas muitas das dinâmicas às quais estamos acostumados em games do gênero se aplicam ao título da Nintendo.

Pokes (golpes a uma distância “segura” para forçar um movimento errado do oponente), pressões (ficar em cima do inimigo), mixups (jogar de forma imprevisível, para que seu oponente não saiba seu próximo movimento) e punishes (aproveitar o erro do oponente para emplacar uma sequência de grande dano) são alguns dos jargões da comunidade de games de luta que são vistas com frequência nas partidas de ARMS. Tudo depende do quão rápido você aprende como acertar seus golpes.

O que dá uma variação competitiva interessante ao jogo da Big N é a possibilidade de equipar diferentes tipos de mãos nos lutadores. Há luvas que permitem golpes mais diretos, bumerangues que têm trajetórias mais imprevisíveis, ou até mesmo luvas especiais que atiram raios à distância. É possível até mesmo trocar de mãos entre os rounds de uma luta, abrindo ao jogador uma gama de recursos para surpreender e virar a partida.

Spring Man é um dos lutadores da capa de ARMS

Cada arma também tem propriedades elementais, o que adicionam ainda mais uma variável às partidas: uma arma pode ter propriedades congelantes, retardando seus movimentos, ou pode ter natureza elétrica, o que impede o uso de seus braços temporariamente. Há vários braços a disposição, que podem ser comprados a medida que você adquire a moeda do jogo ao participar de partidas.

Todas as mecânicas e sistemas de ARMS certamente o posicionam como um bom candidato ao cenário competitivo, mas, no fim das contas, quem decide se um jogo vira eSport é a comunidade em torno dele. E nesse quesito, a Nintendo poderia ter caprichado um pouco mais.

Não dá para negar que o título tem carisma. Os personagens são fáceis de lembrar e suas características os diferem de forma radical: Twintelle, por exemplo, tem as luvas no cabelo, Mechanica usa uma armadura, Master Mummy é imenso, e por aí vai. Mas o elenco é pequeno (são apenas dez lutadores, sem contar o chefão Biff), e prioriza estereótipos tradicionais de jogos de luta sem muita variação.

O que mais deixa a desejar, entretanto, é a pouca variedade de modos de jogo, ao menos em seu momento inicial de lançamento. Por enquanto, é possível apenas disputar o Grand Prix, um modo arcade em que você enfrenta todo o elenco, um por um, podendo ajustar a dificuldade, e lutas avulsas, contra o computador ou contra outros jogadores, de forma local ou online - sendo que esta última tem uma divisão entre partidas casuais e ranqueadas.

Depois de apanhar muito, passei a respeitar ARMS como o jogo de luta que ele se propõe a ser

A Nintendo ainda deve adicionar paulatinamente novos modos de jogo ao game, assim como fez com o primeiro Splatoon, o que deve melhorar esse quesito. O modo Hoops, que pode ser experimentado em uma das partidas do Grand Prix, é um deles: você joga “basquete” com seu oponente, e precisa jogá-lo na cesta para marcar pontos.

De todo modo, o que a Big N já trouxe ao Switch é certamente promissor. ARMS merecia um pouco mais de atenção da produtora (o que certamente deve vir nos próximos meses), mas ainda assim vale a pena ficar de olho nesse título, sim, especialmente se você for fã de jogos de luta. Não faça como eu e não se deixe enganar por sua aparência nem por sua simplicidade: esse jogo de luta merece respeito.

ARMS está disponível para Nintendo Switch. Clique aqui para conferir o preço do jogo em sua versão digital.

Nota do crítico